A luta Coloquial

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Nesta noite dormi maravilhosamente bem:

Conciliei o sono às duas e meia da madrugada e acordei às cinco e meia.

Isso com duzentos quilos de psicotrópicos na cabeça…

Sentei-me aqui e comecei umas pesquisas para um site que vou fazer (finalmente um trabalho, mesmo que um bico…).

Contei dez peças de roupa no varal. Isso, para mim, é um evento.

Tirante o dia em que vi os varais completamente vazios, é a primeira vez que os vejo assim desocupados.
Ninguém se move na casa.

As vassouras, que são quatro, estão sobre o telhado, tomando sol; desconheço esta técnica de bronzear vassouras para que elas limpem melhor, mas a mulher deve saber o que faz.

Junto com as vassouras há uma surrada prancha de Body-Board e um saco plástico enorme, cuja finalidade eu desconheço.

Talvez more um ogro lá.

E este ogro deve sair, de madrugada, caçando crianças incautas.

Está visto que estou a dizer besteiras.

O fato é que estou enrolando a todos no afã de não cumprir uma promessa que fiz ontem usando um mote surrado que é a casa da Matriarca que vive de lavar roupas; ou pelo menos, aparentemente, vive para lavar roupas.

Por falar nisso, imprimi o texto que fala do motorista raríssimo e entreguei-o a ele.

O pobre chorou.

Arrependi-me de ter dado o texto.

Em seguida me arrependi de tê-lo escrito e, por fim, me conformei com os fatos.

Chorar faz bem.

Mas o dever de repórter me chama e vou contar o que se passou outro dia no HC.

justica

Eu contei, semanas atrás, que havia entrado com um mandado de segurança para obter um remédio, o Plenty®, que é um moderador de apetite de ultima geração, sem anfetaminas, que eu tomo por sofrer de lipodistrofia.

Hora destas explico o que é lipodistrofia. Mas adianto que é um flagelo na vida de quem porta HIV.

Pois bem, a juíza me deu a tutela antecipada e determinou que o HC me entregasse a medicação em, no máximo, dez dias.

Primeiro foi um telefonar sem fim para eu saber onde retiraria o remédio.

Até que eu soube onde e comecei a ligar todos os dias. E todos os dias eu recebia uma desculpa qualquer. No décimo segundo dia eu perdi a paciência e, com meu modo meio intempestivo de ser, fui à sétima vara e solicitei audiência com a juíza que cuidava do meu caso.

Disseram que era impossível.

Retorqui que eu era contribuinte e nada era impossível ao contribuinte.

Que o caso era de vida ou morte e que havia uma situação de desrespeito a liminar concedida por ela.

Venci

.

A Digna Juíza me recebeu, muito séria, e me disse que esperava que eu tivesse uma boa razão para perturbá-la.

Peguei a cópia da sentença que ela expediu e perguntei se aquilo tinha algum valor.

Ela me olhou como quem olha um extraterrestre, tamanha a minha ousadia e disse que era uma determinação judicial e que tinha que ser cumprida no prazo, sob pena de prisão.

Então eu disse a ela:

“Minha senhora, continuo sem os remédios”

Ela consultou o calendário, deu um telefonema no qual certificou-se que o HC havia sido notificado e me disse:

Senhor, vá para casa.

Se em dois dias o senhor não tiver seus remédios em mãos eu não me chamo X…(está claro que eu não posso divulgar nomes).

Fui para casa matutando no que poderia ocorrer; mas fui confiante.

De facto, como dizem os portugueses, dois dias depois eu recebi um telefonema onde uma voz adocicada me informava que a medicação “já” estava à minha disposição.
Eu retorqui que “finalmente” as coisas pareciam querer começar a funcionar e me abalei até o HC onde peguei uma caixa de remédios em que estava escrito, em caligrafia precária, o meu nome…
Nesta semana eu soube do ocorrido.

A Juíza mandou um oficial de justiça ao HC para saber se o remédio tinha sido entregue ou não.

Uma vez constatado que não, deu voz de prisão a um graduado do HC que, em pânico, buscou um acordo.

O acordo se deu. Ele comprou o remédio e pagou uma multa pelo desrespeito à ordem judicial.

Isso só aconteceu porque eu não estava lá.

Pois se estivesse, não permitiria o acordo.

O acordo só se daria na delegacia, onde ele, o graduado, seria indiciado em crime previsto em lei e ficaria, assim, sob a vigilância da lei, impedido de reincidir na ação de não comprar remédios para pacientes…

Depois do bolo assado e servido houve um telefonema do HC para a Casa da AIDS, onde me trato.

O teor do telefonema é abjeto.

E se eu o revelasse, teria complicações múltiplas, tendo de levar muitas pessoas, incluindo a mim, à barra dos tribunais, gerando um escândalo sócio-político sem proporções.
Teria imenso prazer em fazer isso.

Mas, para fazê-lo, eu prejudicaria uma pessoa a quem quero muito bem.

Então não o farei, por agora.

Mas tenho isso registrado aqui, direitinho e, algum dia, farei os alicerces do HC tremerem só um pouquinho.

Aí saberão “quem é este Cláudio…”

A casa continua parada.

A matriarca deve ter tirado a quinta-feira para descansar.

Ou então há escassez de sabão ou água.

Meu time, o Santos, ganhou ontem de dois a zero, em território adversário. É o segundo colocado no campeonato.

É um time de meninos.

Talvez eu o veja me dar mais uma grande alegria este ano.

A vida pode ser coloquial. A luta por ela também.

Mas, por mais coloquial que sejam a vida e a luta por ela, algumas vezes precisamos acirrar os ânimos e enfrentar as adversidades da mesma maneira como Davi enfrentou Golias e fazer como a Flor de Lótus:

Brotar de um pântano, elevar um caule sob a água e florescer, belíssima, em plena e pura atmosfera, exalando um perfume suave e uma beleza indefinível, dando-nos o exemplo claro que é a flor que nasce da adversidade a mais rara e a mais bela (Provérbio chinês citado em Mulan™, desenho da Disney©)…
Até logo mais, minhas crianças.

P.S

Lipodistrofia é uma disfunção metabólica em pacientes portadores de HIV que faz com que a gordura do corpo seja mal distribuída ou consumida de maneira inadequada, gerando deformações físicas terríveis como a perda de toda a gordura do rosto, deixando-o escaveirado, ou se acumulando nas costas, com o nome bastante sugestivo de corcóva-de-búfalo; no meu caso há um acúmulo abdominal que elevou meu peso a 138 Kg.

Depois de um mês de Plenty®, a R$ 128,00 a caixa (dose para um mês) este peso baixou para 124 Kg.

Preciso, para minimizar os efeitos da artrose, reduzir este peso aos 100 Kg…

É uma meta ainda distante, tendo em vista que depois do impacto inicial do remédio houve uma redução na perda de peso e mais, como estou com complicações respiratórias, não tenho podido usar a bicicleta, que ajudava a perder peso.
Como vêem, a vida com HIV não é mesmo um passeio à praça.

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This entry was posted on sexta-feira, julho 18th, 2008 at 21:47 and is filed under Às vezes só no tapa. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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