A nau sem porto

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(o encontro)

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Vivi trinta e oito anos, quase isso, para descobrir que sou como uma nau sem porto.

Triste ofício, dirão alguns. Não direi se concordo ou não. Direi que mais triste é viver à procura de um porto se tudo o que se precisa, enquanto nau, é do mar.

Não quero com isso dizer que não toco terra firme; sim, vez por outra aportei nas villas de algumas damas, onde até me iludi e julguei ter encontrado a estação de meu destino. Juras de convivência eterna, como se isso fosse amor eterno; quimeras!

Há pessoas que são assim: procuram um lugar, um alguém, fincam lá sua bandeira e atravessam a vida com seu barco atracado, a quilha sendo tomada por mariscos, a madeira rangendo, como que a reclamar a falta de léguas, e que esperam o tempo passar para que este resolva os problemas da vida, desaguando na morte.

E terminam suas vidas amarguradas, pensando num possível por-do-sol perdido em Capri (algumas de minhas mulheres foram como Capri; outras me lembraram muito a Finlândia), na praia daquela ilha distante, nunca vista, porque se optou por um porto seguro (é imperativo lembrar que o mais seguro dos portos não suportará uma Tsunami).

E em nome de um amor que não conhecem, perdem a própria vida no anseio da posse, do poder e do controle sobre outra alma, tão livre quanto a sua, tão temerosa de tudo como qualquer outra, tão ansiosa de liberdade, felicidade e alegria como qualquer outra…

Estes, que vivem com suas naus atracadas a portos não poderão jamais compreender àqueles outros ccshipe outras que preferem o mar, a tranqüilidade temporária de uma baía, uma enseada, alguns momentos de alegria junto à pessoa amada e o re-encetar da caminhada, mar adentro, ciente de que ama e é amado.

Esta consciência, de ser amado, é a melhor, talvez a única bússola de quem navega sem um porto especifico como destino.

Deixamo-nos levar pelo sabor do vento, pela puxada das marés, atravessamos noites densas de saudades, muitas vezes não dormimos direito, não temos paz em nossos sonhos, os anseios de carinho nos fustigam a alma e nos enlouquecem o espírito, mas nos sabemos amados, e isso nos faz com que prossigamos, mesmo sem um porto possível.

Amanha, pensamos, é outro dia.

E neste outro dia há sempre uma leve ponta de esperança.

Talvez minha nau se encontre com aquela outra, talvez não.

Que importa?

Mas se nos encontramos, aí, Senhor, como é bom, tudo é alegria; um abraço imenso, do tamanho do mundo, um beijo só nosso, em qualquer lugar, alheios a tudo e nada mais importará:

Uma pequena pousada, um modesto quarto de hotel no baixo meretrício de uma grande cidade, um quarto em uma hospedaria, alguns dias de loucura e silêncio, isolados do mundo, ignorando a tudo e ignorados por todos, nós nos amamos intensamente e recuperamos, sempre, a forças necessárias para seguir viagem.

Quando nos deixamos, não há um adeus.

Quando muito, um até logo (I see you when I see you); algumas lágrimas mal contidas; a vida chama-nos, nos cobra atitudes, exige que prossigamos até que possamos nos ver novamente.

Muitas vezes temos aquela impressão de que a vida nos trairá e que nunca mais nos veremos; aí, sentimos aquele medo terrível, aquela angustia inconcebível. Mas o chamado da vida é forte demais e, mesmo com medo que esta mesma vida nos atraiçoe, fazendo com que desapareçamos para sempre, um do outro, arriscamos nosso barco pequenino, mas aconchegante, sobre a interminável, imprevisível sucessão de ondas altas e baixas que formam as nossas vidas.

Não somos tolos; nem crianças.

Sabemos que cada um de nós vai encontrar outras pessoas, atracaremos em outros portos, para derramar as lágrimas de outras pessoas (lamentaremos muito cada uma destas lágrimas) e que sempre seguiremos adiante, até que o acaso ou a saudade nos obrigue a nos encontrarmos, se a vida permitir; valemo-nos sempre de sabermos que ela o tem permitido até aqui.

De repente, na calada da noite, soa o telefone, como uma grata surpresa e a voz do outro lado diz:

Oi! Estou a caminho. Quer me ver?

E o coração da um salto. E você disfarça a ansiedade e diz. Sim! Como não quereria?

Outras vezes, é um simples e-mail, o numero de um PTA e um pedido, uma suplica, uma ordem:

“Embarque amanha, na direção desta ou daquela cidade, te espero ansiosamente…”

E largamos tudo, dane-se a maldita e caprichosa vida com seus desígnios, já estamos a caminho.

E novamente nos encontramos, nos amamos, nos exaurimos e nos deixamos, com outro até breve.

Cada um carregará em si o mesmo medo:

“Será que não a (o) verei novamente?”

E vacilamos no abraço, que se prolonga interminavelmente, como se fosse o último, o inapelável último abraço.

Não será, sabemos disso; talvez não…

Sabemos ou esperamos que ver-nos-emos muitas vezes, porque este é o nosso destino:

Não ter destino.

Sempre uma foto na carteira, um porta retratos na mesa, um modesto pôster na parede.

Se alguém entra em nossa nau olha, com despeito, aquela imagem, como se fosse uma afronta; não nos perdemos em explicações:

“-Quem é?”

“-Uma pessoa querida”, esta é a resposta lacônica e pouco mais se dirá sobre isso.

E que é assim, caminhando pela vida, sem destino, num mundo aparentemente tão grande, que nos encontraremos em cada esquina. E mesmo nas horas mais críticas, onde haja ate mesmo um perigo maior, daqueles meio sonsos, como um pivete com um punhal que te pede um trocado, ainda nos lembrará do outro, e tudo faremos para que possamos prosseguir…

Porque sabemos que precisamos um do outro. Abençoado é o mundo porque tem telefone, e-mail, Pager, celulares e até mesmo tambores…

São estas as coisas que fazem com que nos encontremos sempre. Um simples “BJ” às quatro e quarenta e dois faz com que nos sintamos amados, porque fomos lembrados; outras vezes, um imenso sinal:

“Te amo.” E não há vento forte, onda alta ou nevoeiro que possa obstruir a nossa alegria!

O que mais pode esperar da vida um homem ou mulher que escolheu caminhar só?

Amamo-nos; sabemos disso.

O resto não e nada.

Voce me acha muito amargo?

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This entry was posted on sábado, julho 19th, 2008 at 20:14 and is filed under Minhas observações. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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