A passagem de um ano. Quase morrer duas vezes é mais do que se pode aguentar…
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Notei, eu mesmo, que mantenho-me deveras ausente do meu ofício diletante de escrever. Sim, escrever, para mim, é diletantismo, uma maneira de desnudar minha alma aos que passam e interessam-se por ela, assunto um tanto insosso.
E refleti no por quê disso.
Bem, a vida não tem sido fácil para mim nos últimos quinze meses.
Em vinte do doze de dois mil e seis eu sofri uma trombo embolia pulmonar. Convencionaremos por TEP.
Isso reduziu sensivelmente meu ritmo. Mas eu trabalhava em duas frentes na época, de um lado meu servidor web, para fazer uns troquinhos, de outro uma brecha como programador free-lancer numa agência de publicidade que tinha um ritmo frenético e me levou a uma estado de relativa insuficiência imunológica que culminou numa meningite com dois agentes etiológicos diferentes.
Morfina. Bradicardia, UTI.
Acordei na UTI crente que estava no Inferno ou em um circo de horrores, e passei alguns dias lá sendo tratado de maneira fria e impessoal, como se eu não fosse um ser humano e muito pouco valesse. Uma vez parcialmente recuperado fui transferido para o Hospital Vila Mariana onde fiz, via rádio (nextel) alguns ajustes no servidor da empresa de publicidade. Era um sábado à noite e minha cabeça doía tristemente. Mas fiz o que precisava ser feito.
Na tarde seguinte, no leito do hospital, através do mesmo rádio que usei para prestar um serviço, fui demitido! É fato que na vida eu já ouvi da boca amada um adeus por telefone, mas uma demissão!? Num leito de hospital?!
Que tipo de pessoa faz isso?
Eu não sei.
Mas segui adiante, não sem uma lágrima embargada, mas segui adiante.
Vim trabalhando meu servidor, mas as coisas não andavam bem e eu passava por extremos emocionais dolorosos, eu me via à porta da falência…
O natal e o ano novo transcorreram-se sem solavancos, eu já ia “esquecendo” a embolia.
Entrei por janeiro em severas dificuldades e cada vez mais tenso e no mês de fevereiro fiz uma negociação com meu Data Center e eu migraria, “by myself”, para outro painel de controle e minhas despesas despencariam em 50 dólares mensais.
Era um processo arriscado, o servidor é um computador como qualquer outro, mas é manipulado remotamente e isso é um problema em crises.
A operação não foi bem sucedida.
Houve erros e o servidor de e-mail persistia em funcionar, mas a parte responsável pelo sistema web não.
Passei horas ali e não obtive sucesso, desesperava-me aquela situação, pois eui tria de pagar 50 dólares para a intervenção dos técnicos do Data Center. Eu não tinha este montante.
Estava perdido e comecei a sentir-me mal.
E a piorar. Tanto que pedi à minha esposa que me levasse ao São Camilo, hospital para onde sempre corro quando não estou bem.
Apesar de me sentir mal eu não imaginava o que teria, o que seria, melhor dizendo, aquele mal estar.
A médica me ouviu com serenidade, fez alguns exames clínicos e mandou-me para a observação
Na observação eu comecei a perceber que não ia nada bem.
Fizeram uma gasometria, me deram oxigênio e grudaram duzentos mil fios em mim.
Mandei chamar a médica e perguntei do que se tratava. Ela respondeu que falaria assim que os resultados de alguns exames ficassem prontos. Isso consumiria noventa minutos.
Adormeci
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A médica me acordou suavemente, chamou minha esposa e disse que eu sofrera um enfarto. De pequenas proporções (Alguém me explique isso) mas que necessitava de cuidados.
Minha internação foi pedida e acabei sendo encaminhado para a UTI do Vila Mariana. Pelo andar da carruagem brevemente poderei ser crítico de UTI’s .
Além de muito assustado, estava cansado. De quebra, sedaram-me.
Quando acordei, meu olhos me confirmaram: Estamos dentro de uma UTI. Entenda por estamos meus olhos, pernas, cérebro e todo o restante do conjunto. Nem mesmo meu joelho foi deixado fora da UTI.
Era um lugar limpo. Com enfermeiros e enfermeiras bastante serenos, sem corre-corre e que, embora abrigasse o sofrimento e um pouco da sucata humana em seus últimos estertores, transmitia paz. Mas eu não sintonizava com isso.
Em minha havia o seguinte.
“Enfarto! UTI. Cadê minha esposa? Meu Deus eu vou morrer! Meu deus, eu vou morrer?” E chorei convulsamente. E enquanto chorava vaticinava que não desejava morrer.
Não tenho medo da morte, porque sei que é só o carro físico que padece, mas não desejava morrer por muitas razões, a principal delas é:
Não consigo me ver para além dos portões (estou chorando) sem ela. Não quero infundi a ela a dor cruel de me ver partir! Amo-a! Amo-a! Amo-a!… Certo que eu amo atabalhoadamente, mas sou atabalhoado por natureza…
Depois, eu considero que, com doze anos de infecção por HIV, desempregado, falido, limitado por seqüelas pulmonares da embolia, agora infartado e com um futuro incerto à minha frente, estou vivendo os melhores anos de minha vida, e não seria justo que eu fose forçado a deixar o mundo agora, porque eu sofri tanto ao longo do caminho que considero-me merecedor de alguns anos de tranqüilidade ao lado de alguém a quem amo e por quem sou amado; pois entre deixar este mundo ou permanecer nele, mesmo que sobre uma cadeira de rodas, eu ainda aceitaria a cadeira com gratidão, pela abençoada possibilidade de continuar vivendo, crescendo, aprendendo, evoluindo…
Ela chegou um pouco depois e foi como se a UTI se inundasse de luz! Com ela ali não haveria mais riscos ou perigos, eu podia ficar tranqüilo…
Horas depois, recebi alta da UTI.
Fui encaminhado a um apartamento (sic) e senti-me pacificado.
Ela poderia dormir comigo.
Trazer barras de cereais.
Mimar como quisesse.
Fiquei mais dois dias lá e ela não saiu de perto de mim.
Vou começar um trabalho ambulatorial no setor de cardiologia do Vila Mariana e saberemos o que há. Parece-me, segundo ouvi, que talvez eu tenha de ser submetido a uma cirurgia e colocar um marca-passo.
Chega a ser irônico. Durante a vida, especialmente na juventude, eu fui um estouvado e fiz muitas mulheres sofrerem, por conta do descompasso do meu coração.
E no remate dos remates, para que não se perca uma só oportunidade, talvez deus venha a ajustar meu coração através de meios eletrônicos(…). Tudo vem de Deus
E eu chego aqui com a impressão que não disse tudo, pois tudo o que fiz foi falar de mim. E se o testemunho de mim vem de mim mesmo ele não tem valor.
Mas ocorre-me aqui que na verdade eu fiz uma pública e imensa declaração de amor por uma mulher cujo nome protejo por amor, e não é em um codinome beija flor.
E isso me faz pensar que existem pessoas, para mim e para você que me lê, que vêm com a função de anjos encarnados a lhe proteger e orientar onde você, ou eu, sozinho, não vale nada.
Por isso eu queria deixar uma advertência:
Não menoscabes a oportunidade de viver, por mais difícil lhe pareça a jornada, muita vez julgar-se há só; mas Deus estará te observando e cuidando para que não caia em despenhadeiros maiores… E quando a crise for por demais aguda, capz de nos transcender a capacidade de resistência, certamente ela já terá mandado, há muitos anos, um anjo encarnado a proteger-lhe e resguardá-lo
Por fim, seus mal educados, completei quarenta e três anos no ultimo dia dois de março
PS
Hoje, quando rebublico este texto, ja me aproximo dos quarenta e cinco anos….

