A primeira noite na noite
| Como eu já devo ter contado mil vezes, Fátima, a garota de programas me resgatou à dignidade mínima me dando duas calças, três camisas e um par de sapatos apertados cuja marca eu ainda tenho em meus pé esquerdo…
E fez mais. Arranjou-me um emprego de lavador de pratos na antiga boate Louvre. Na primeira noite eu deixava para trás muita gente. Colegas de infortúnios e mesmo alguns amigos, embora poucos, mas eu deixava-os, como quero crer, sem olhar para trás… Ou não foi bem assim. A seu juízo Havia uma menina em nosso grupo, havia várias, que eu achava particularmente bonita e pensei nela com certo remorso. Mas o fato é que me deparei com um mundo cheio de sons, luzes coloridas e mulheres belíssimas que viam em mim um “bebê” que elas adotariam com extremado desvelo… E foi um subir e descer de escadas, enquanto todos verificavam se eu era ou não “esperto” e a noite passou rápida. Veloz. E eu fui me esquecendo de meus companheiros de fome e de frio, de bordoada e camburão, de medo e valentia, de noites de brinquedos, nós éramos felizes ali, nos protegendo mutuamente, alimentando-nos, auxiliando-nos, como um bando, sim, um bando. Éramos, nós, cerca de 14 pessoas, por nós mesmos escolhidas e agrupadas, formando um bando que, vez por outra, a polícia desbandeava (neologismo meu, se me permitem) por alguns dias… Isso tudo foi o que esqueci… …não, foi no que pensei quando a noite acabou e ainda havia panelas cheias de comida que o cozinheiro determinou que fosse jogada fora. Em um segundo me lembrei de tudo isso, uma lágrima aflorou em meus olhos. Pensei nos meus amigos, naqueles anos de fome, pensei em tudo. Minha primeira noite na noite falou-me da iniqüidade dos homens. Aprendi isso com pouco menos de dezoito anos
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