Aflição

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server

Quando escrevi este texto estava realmente muito aflito. Sofria de uma dor que era meramente moral(…).

Para que se diga tudo, uma certa “agencia de publicidade” me contratou para fazer uma das coisas que mais amo:

Gerenciar um servidor web.

E brincar de ser Deus. Programar.

Prometeram-me mundos e fundos, mas me encheram de trabalho e prazos cada vez menos possiveis ou verossimeis ate que eu tombasse pela primeira vez:

Embolia pulmonar.

Era de se esperar, vinha fazendo jornadas de 40 a 60 horas ininterruptas para entregar as coisas dentro do prazo e nao perder “a grande chance de minha vida.”

Cai no dia 20 de dezembro de 2005.

Recuperei-me e voltei ao trabalho.

De novo os prazos.

E enquanto isso eu ia passando informacoes sobre a administracao dos servidores.

Ha algo nos servidores web que eu nao ensino a ninguem:

Tabela de DNS – ou Zona de DNS.

E o coracao do sistema e, sem isso, o servidor e como um canario mudo diante de uma orquestra.

Havia uma deficiencia no servidor, faltava uma protecao adequada para trojans.

Eu avisei o fato e nao havia verba para custear um software de 29USD.

Lavei minhas maos e nao deu outra.

Menos de 15 dias a maquina pirou, o Demonio, com seu vasto parque de informatica, tem medo de trojans…

Precisei dar um reload na maquina, uma operacao executada pelo data center que implica na formatacao do sistema e na reinstalacao dos softwares contratados.

O Data Center e sempre muito gentil e cobra só 150USD pela tarefa automatizada que consome duas horas.

Dei a ordem do reload numa terca feira as 22:00 GMT -03:00

Quarta Feira 02:15 GMT -03:00 dei entrada no hospital.

Meningite.

Bradcardia.

Delirios.

Incosnciencia. Dores lancinates das quais não me lembro.

Morfina…

Tudo isso me foi relatado por minha esposa, haja vista que eu nao me lembro de nada;

Ninguem sabia por o servidor no ar.
Mas tinham copia do material do sistema e se alojaram, por cortesia, num sistema de revendas de hospedagem.

Enquanto isso eu permanecia incosnciente na UTI.

Levei tres dias para acordar, dois para sair de la e ser removido para o Hospital Vila Mariana.

Pedi a minha esposa o radio.

Era um sabado e entrei em contato com o meu patrao.

Ele disse: “Claudinho”. Tenho pavor de quem me chama assim.

“Precisamos de voce”.

Voce pode fazer este sacrificio?

Eu disse que sim.

A noite, chamei o figura que era meu chefe e comecei a passar as coordenadas.

Tapado como uma porta, me consumiu quatro horas para fazer, vendo, o que eu ensinava sem ver.

Depois que eu evoquei todos os anjos, querubins ,satiros, sucubus e incubus ele conseguiu. O servidor estava no ar.

Mas eu deixei uma brecha que dará pano para eu contar amanha.

Eu sabia o que estava fazendo, com quem estava lidando e que riscos estava correndo.

No dia seguinte, um domingo, a tarde, ele me chamou pelo radio, eu internado no Vila Mariana, e, com meias palavras, dizendo me amar muito (Lucrecia Borgia amou muitos homens) me demitiu.

Nao preciso dizer como senti-me.

Semanas depois, em casa, escrevi o texto que segue abaixo:

De tudo o que ja escrevi, tenho, assim, de soslaio, que este sera um dos mais dolorosos que terei escrito em toda a minha “vida publica” na Internet. Comeco o texto com trecho de uma musica de Alceu Valenca:

Meu coracao ta batendo, como quem diz, nao tem jeito, zabumba bumba esquisito, batendo dentro do peito. Teu coracao ta batendo, como quem diz nao tem jeito, o “coracao dos aflitos, pipoca dentro do peito…”

Talvez eu devesse terminar por aqui, render minhas homenagens aos autores e calar minha aflicao.

Nao. Eu nao seria Claudio se fizesse isso.

aflicao

Lembro-me de ter lido num livro do Chico Xavier que deveriamos recorrer a Escola da Caridade quando o tedio nos ameacasse assomar nossas portas mentais…

O autor nos convida, em determinado trecho, a visitarmos aqueles que sorvem angustia e desespero, nos resvaladouros da loucura a qual nao puderam fugir, dados os impositivos da vida, gerados por pessoas, nem sempre doces, nem sempre responsaveis pelo que fazem, dizem ou prometem.

Eu confesso caminhar por estes resvaladouros, sofrendo “agoniadas emocoes”, que me tiram a capacidade de discernir claramente sobre que destino dar a mim mesmo.

Disse ha pouco tempo que lutei nove anos, 11 meses e dez dias para que me fosse restituida a dignidade.

Ledo engano.

Nada se me restituira aquele ponto.

Ali o destino preparava mais um de seus golpes, para me ensinar outras lições, que eu ainda nao compreendi ao certo o que significam, para uma pessoa que nada ao mundo pedia, senao a abencoada possibilidade de poder ganhar minha propria vida com o suor proprio de meu rosto…

Nao é, pelo menos em minhas analises, um pedido incomensuravel!

Nao queria a opulencia de castelos, nem servicais a me exalcar a preguica.

Queria, ou quero, ja nao sei bem, uma vida (…) normal, com os tropecos que ela oferece e as alegrias, que uma pessoa que veio simplificando-se pela vida afora pode receber.

Uma viagem curta ao litoral.

O direito de estar em bom ambiente hospitalar quando a enfermidade o ataca; alguns caprichos (hoje vi um tapete de couro de vaca que eu desejei muito e nao terei jamais.

Lembrai que o mal nao reside em ter, mas sim em reter.

Reter o desnecessario é o grande mal.

Mas cada um, a seu tempo, sera chamado a prestar contas do que lhe foi concedido a Titulo de Emprestimo, pela Sabedoria Divina.

As coisas que eu queria, como vedes, sao bastante simples.

Eu nao mencionei carro.

Nao tenho condicoes neuro-psiquiatricas para dirigir.

Conformei-me com isso; aprendi, aceitando o que a Vida da, a receber o que a Vida oferece.

E ela tem me oferecido ate que muita coisa.

Tenho uma companheira que esta acima de meus meritos e merecimentos.

E que em muito supera o meu eu.

Tenho casa.

Um lar.

Fiquei sem isso por cinco anos durante a minha adolescencia e sei o valor de um lar.

Um lugar para ficar e uma pessoa para quem voltar.

Ah! Vos que me ledes, se soubessieis o valor destas duas coisas pouco mais pediriam.

O lar que te acaricia os dias e um manancial inesgotavel de felicidade se souberdes tirar dele o que ha de melhor…

Entao, se tenho estas coisas, nao devo em queixar da vida, dirao alguns dentre vos.

Mas resta a questao do trabalho.

Ponto indissociavel de minha personalidade.

Eu preciso de trabalho como peixes em um aquario precisam de um mecanismo que dissolva oxigenio na agua para que eles possam viver.

Mas isso me foi literalmente roubado.

E eu fiquei aqui, nos resvaladouros da loucura, avaliando a minha propria situacao com isencao científica.

As pessoas que me usurparam nenhum mal eu fiz; nada que merecesse uma demissao via NEXTEL enquanto eu jazia numa cama de hospital….

Entao me quedo prostrado, sem uma palavra, para explicar estes acontecimentos.

Karma, diriam os Samurais – Eu perguntaria onde fica meu Dharma…

E, desta forma, indo nos escuros e estreitos resvaladouros da loucura, meu coracao vai batendo, como quem diz, nao tem jeito, zabumba, bumba, esquisito, batendo dentro do peito…

e MEU coracao vai batendo, como quem diz, nao tem jeito; e um coracao mui aflito, pipocando dentro de um peito…


This entry was posted on sexta-feira, julho 18th, 2008 at 20:00 and is filed under O passado recente. Descaminhos. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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