Ainda Sobre Vera
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Para melhor entender este texto recomento que se leia VERA.
Segunda feira foi dia de analista. E eu estava um bocado perturbado com o relembrar Vera.
Ficou uma sensação de elo perdido, um leque de possibilidades inexplorado e, enfim, por conta da minha imaturidade se criou um abismo.
Cheguei ao consultório atrasado, mas mesmo assim dei o texto anterior para Éline ler.
Ela leu e conversamos.
Aí ela me demonstrou que eu ainda interpretara mal os fatos.
Não fora um relacionamento meramente sexual.
Se assim o fosse, ela não me perguntaria sobre minhas reais intenções para com ela.
E não se afastaria por eu não ter dado a resposta adequada.
Por outro lado, observando-se a mim e à tristeza com que eu narrava os fatos e a dor que senti na época (era um tempo em que eu era orgulhoso eu não clamaria pelo amor de uma mulher. Hoje, bem, as coisas são outras…) e saltava à vista que eu encontrava nela um verdadeiro suporte emocional que me dava carinho, atenção, colo e até mesmo sexo, dentro das limitações impostas por Vera e que eu acatava silenciosamente.
Isso tudo era bom para mim e a perda da época, re-editada muitas vezes até um passado recente e doloroso, impõe limites à minha capacidade de ação.
De certa forma, eu diria, o medo de novas perdas tem sido a bússola de minha vida.
Péssimo norteador.
Baseado no medo é que cometemos os mais graves equívocos.
E no desespero decorrente destes equívocos vêm erros clamorosos que eu jamais poderei confessar.
Nem mesmo à Adriana, minha escritora.
Carregarei alguns destes erros em minha consciência para o túmulo e para além dele.
E junto com eles a vergonha.
Há algumas pessoas que eu não posso olhar de frente, não posso sustentar o olhar.
E tudo isso se fundamenta no terror de cometer mais um erro como o cometido com Vera.
Com Vera eu não disse a coisa certa.
Com outras não agi corretamente; com algumas tergiversei sobre a verdade; outras eu iludi; algumas eu aniquilei emocionalmente; sempre com medo de perder…
E com o medo de perder me servindo de bússola o que mais tenho feito é perder e perder; e perder mais a cada dia.
Por isso estou me despojando deste medo.
Se eu errar, terá sido porque não estou preparado, como não estava ao tempo de Vera, para enfrentar determinada situação.
E, portanto, não haverá culpa, apenas imperícia.
Como se eu fosse surpreendido por algo inusitado e ficasse paralisado.
Só que medo, não mais.
Daqui para frente vou encarar as coisas de outra forma, sem medo de ser infeliz, buscando ser feliz.
Esta, penso eu, até agora, é a maior lição que Vera me deu.
“Quod scripsi, scripsi”
Pôncio Pilatos
