Débora

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Confesso que sou um privilegiado. Através de minha janela gradeada posso ver uma imensa Lua cheia e seu halo de luz branca, olhando para mim….

Há muitos anos me habituei a vigiar a Lua e esta, sem nada melhor a fazer, fica lá em cima, me vigiando. Uma Lua traidora, que já me fez promessas que não cumpriria… Uma Lua benevolente, que iluminou momentos de prazer e loucura, tingindo tudo de prata e azul…

Uma Lua caprichosa, que se trajou de rubro na noite de gala em que eu partiria para a suposta felicidade que nunca alcancei…

Foi numa noite de Lua cheia que conheci Débora, 14 anos atrás, numa festa de casamento. E foi a Lua cheia que iluminou nosso primeiro beijo. Uma Lua cheia depois Débora partia de minha vida para nunca mais voltar.

Era impossível. O que ela tivera antes, uma relação de quatro anos, não poderia ser suplantada de súbito por um namorico com um DJ cercado de cortesãs.

Então ela preferiu não correr todos os riscos e ficar com aquilo que julgava certo e me fez chorar. Quando ouço Jonh Anderson e Vangelis e sua música Deborah, tantos anos depois, me lembro da fossa que curti por Debbie. Sim, foram semanas difíceis. E quando o coração da gente é jovem e inexperiente nestas coisas de amor, qualquer dor dói muito mais que o necessário… E eu sou fortemente impressionável pelas coisas. Ainda me lembro em que banco da estação Santana do metrô ocorreu o rompimento.

E quando passo por lá, sempre me vêm aquela dúvida: Terá, Débora, sido feliz em sua escolha? Espero que sim. Pois do contrário ela pode ter evoluído pela vida de maneira amarga e solitária, e eu não desejo isso a nenhuma daquelas que me deixou. Nem às que eu deixei…

É a Lua me faz assim, nostálgico, e muita coisa eu teria para lembrar e contar. Mas o peso dos anos, a impressão de opressão causada pelas derrotas impostas pela vida (a vida impõe isso a todos) me fazem ficar assim, vagando de palavra em palavra, sem que muito possa ser dito.

Vida de cronista (pretensão a minha) é assim mesmo. Como disse o Braga, “o escritor escreve um livro, um poema e deixa lá uma obra acabada, para toda a eternidade. Já o cronista, é como um nômade que a cada dia precisa caminhar pelo deserto à cata de algum assunto, armar sua tenda, escrever, mesmo que mal, e partir, em busca de algo mais a dizer.

Esta coisa de precisar dizer alguma coisa é uma coisa que pega e não larga, gruda e se prende à nossa pele, ao nosso sangue.

Por falta de assunto, com o mote da Lua, relembrei Débora e todas as possibilidades que ela me abriu por um mês e depois fechou, para que nunca mais se abrissem.

À vista disso, colando o Braga, coloco-me melancólico…

This entry was posted on sexta-feira, julho 18th, 2008 at 17:26 and is filed under Os amores. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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