E se…?
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Nestes dias em que venho adoecendo mais que convalescendo também tenho me aplicado em ler “UM” de Richard Bach; leitura recomendável a espíritos abertos e que já podem compreender o real significado da faixa de moébios (aquele oito deitado que significa o Universo, o Infinito) onde o ponto de cruzamento das linhas pode ser atravessado e, depois disso, você cairia numa tempo/universo alternativo…
É disso que o livro trata.
Das inúmeras possibilidades que temos.
De nossos egos alternativos, resultados de escolhas diferentes que faríamos e/ou fizemos que redundaram ou redundariam em outros fatos, outras vidas…
Isso, na minha vida, dá muito que pensar.
Se não fosse a Fátima, naquele prostíbulo, a se interessar por mim e me reerguer a condição de mínima dignidade humana, dando-me teto e trabalho, eu teria enlouquecido em poucos meses e me suicidado; eu tinha dezessete anos e pensava muito no suicídio por não suportar mais o frio e a fome.
Mas foi minha a escolha: eu preferi enfrentar o frio e a fome por cinco anos a enfrentar a violência de meu pai…
E, a bem da verdade, se é todo da Fátima o mérito por me reerguer, é verdade que é meu o mérito de ter escolhido entrar naquele prostíbulo àquela hora, naquele momento…
Se eu não escolhesse isso, minha vida teria acabado meses depois e seria um livro triste e curto, com um lastimável epílogo…
Mas eu fiz uma escolha e encontrei Fátima, talvez em outro Universo eu não tenha feito a escolha e tenha enveredado pelo crime, não é de todo impossivel.
E durante a minha vida fiz muitas outras escolhas de tal maneira que as possibilidades alternativas formam uma miríade inconcebível.
Se eu tivesse aceitado o suborno de Shirley, estaria morando na Vila Mariana, num respeitável apartamento, com dois ou três filhos, sem HIV, trabalhando em algum escritório da megalópole.
E talvez, num destes Universos paralelos, realmente exista um Cláudio alternativo que vive exatamente esta vida.
Por outro lado, se eu não tivesse dito não àquela pessoa, não teria sido demitido e me tornaria um DJ famoso, trabalhando em Las Vegas, envolvido com drogas e prostituição, acumulando culpas que prefiro não ter.
E pode ser que neste momento estes dois egos alternativos estejam refletindo justamente sobre o campo das hipóteses, pensando em “quem seriam se não fossem…”
E uma multidão de “eus” alternativos estaria em cada um de seus universos pensando, agora, na mesma coisa.
Seguindo adiante neste raciocínio, eu poderia dizer que fiz nova e importante escolha quando recebi o diagnóstico positivo para HIV.
Escolhi viver a qualquer preço, mesmo que isso me custasse lágrimas e sangue.
E, atesto, custa mesmo lágrimas e sangue.
Lágrimas que eu derramo quando perco alguém para a AIDS ou quando morro de medo que “alguma coisa mais séria esteja me acontecendo”, e sangue que deposito todos os meses em ampolas que servem para exames de rotina…
Se eu tivesse me permitido a derrota, estaria morto neste universo e não poderia ter o prazer de ver a mulher que tanto trabalha na casa em frente à minha janela, nem me aquecer ao sol de julho, sob o vento sul, numa situação contrastante que me faz vivo em todos os sentidos…
Mas eu poderia ter escolhido apenas viver, sobreviver e pronto.
Não teria site com dezoito mil visitas mensais, nem lista com cento e oitenta pessoas e mais de dez mil mensagens em três anos.
E nem mesmo o texto que é meu depoimento de vida teria sido publicado, porque eu não o teria escrito, e ele não teria servido para nada e, ao que me consta, pelos e-mails que recebo, ele é fonte de força e inspiração para muitos…
Eu, particularmente, acho que minha historia é uma historia comum, quase vulgar. Mas eu não posso me julgar ou dar testemunho de mim mesmo.
O que sei é que nada sei.
Não sei como seria minha vida se aos 15 anos (eu era uma criança com fumos de sedutor) eu tivesse dito a frase certa para Vera (eu disse a frase errada e ela me abandonou no dia seguinte) e como seria meu mundo, e o de vocês, posto que faço parte dele, conquistando-a para todo o sempre…
Sei que disse a frase errada, exprimi o sentimento verdadeiro de maneira incorreta e o coração não permite este tipo de incorreção.
Pelo menos o coração de Vera não!
E tudo isso só foi possível porque eu, vinte e dois anos atrás, entrei em um prostíbulo e uma mulher marcada pela vida e pelo infortúnio se interessou pela minha história (é preciso pensar em quantas escolhas ela fez até chegar àquele ponto), fazendo com que a mesma mudasse da água para o vinho…
É bem verdade que depois do impulso inicial dado por ela tudo foi esforço meu. Mas cada escolha mudava minha vida para melhor ou pior, que importa?
Só sei que mudava e ainda muda.
Por isso, hoje, beirando aos quarenta anos, com uma expectativa de vida ambígua e duvidosa, procuro escolher com cuidado cada passo que dou…
E mesmo assim não consegui me isentar de erros. E estes erros me custam a paz d’alma e do coração…
Eu sempre me pergunto:
E se…? E se…? E se…?
Mas acho que nunca obterei as respostas.
Apesar de, em meu íntimo, saber que já as possuo todas, em meus Universos e egos alternativos…
Será mesmo?
Está pergunta ficará sem uma resposta por toda uma vida.
E quando vier, talvez eu não possa fazer nada com ela.
Mas de uma coisa eu tenho certeza:
Não há destino


