Marina e Priscila (Ana Cláudia)

Antes de Flávia veio Marina.


E junto com Marina, Priscila; ou Ana Cláudia, como queiram, ou como reza o Cartório em Bonito, Pernanbuco.


Marina era minha esposa e a união já durava dois anos quando surgiu Priscila.


Eram duas pessoas completamente diferentes.

Marina era uma candura sem igual e, quanto eu possa me lembrar, só me deu reiteradas provas de seu amor por mim. Foram inúmeras e eu poderia avocar o testemunho de amigos silenciosos que acompanham estes relatos para atestar o amor de Marina por mim. Era um amor incondicional, que se dava e dava de si qualquer coisa por mim.


E por dois anos, eu fui fiel a Marina; de alguma forma, amava-a; mas não tanto quanto ela a mim.


Afinal, não é sempre que duas pessoas conseguem elevar a vibração ao mesmo nível e formar um “casal perfeito”.


Já Priscila era diferente. Era bailarina do La Concorde. Sei que as feministas de plantão dirão:


Filho da mãe (feminista não chama a minha mãe de puta), trocando uma mulher destas por uma puta…


Julgai, antes, vossos maridos, namorados e amantes, tendes muito em que pensar.


O fato é que Priscila tinha um que de sensualidade que me punha em chamas…


E era difícil resistir ao apelo.


No começo, era só uma transa.


Na verdade era para ter sido só uma transa e nada mais. Só que a transa foi ótima e a vontade de repetir pode ser retida por uma noite.


Em uma semana estabeleceu-se um caso rumoroso que mais tarde se tornaria tórrido e cheio de rompantes de desespero.


Eu comecei a levar uma vida dupla.


Uma mulher na noite e outra no dia.

Dormir, que é bom, 4 horas, no máximo cinco.


E eu ainda tinha de trabalhar!


Homens que me lêem, não entrem nesta, é a maior gelada!


Marina pressentiu alguma coisa e se distanciou um pouco, angustiada (lembro-me de ter pedido perdão dezenas de vezes na última vez que nos falamos por telefone uns três ou quatro anos atrás); mas permaneceu firme em seu amor.


Cuidava de mim como se nada de errado estivesse acontecendo, como se meu horário de chegada em casa, cinco e meia da manha, convertido em nove ou dez horas não representasse nada…


Priscila fazia bem o papel da outra.


Exigia a separação.


Eu não sabia que pé tomar, pois me lembrava bem da devoção de Marina e de um rompante de grande valor num momento em que eu caíra em desgraça…


Não podia abandoná-la…


Então Priscila dava o troco:


Fazia o diabo dentro da boate para me achincalhar o orgulho; levava-me a ter medo de perdê-la, um inferno.


Lembro-me que no natal eu fui obrigado a trabalhar. E Marina fez questão de ir o La Concorde passar o natal comigo.


Imaginem-me indo para o cadafalso acompanhado de uma banda de musica tocando “se você fosse sincera, O o o o, Aurora…”


Pois não aconteceu nada de espetacular. Na hora da ceia, sentamo-nos, Marina e eu, a uma das mesas e qual não é minha surpresa quando vejo Priscila se converter em humilde garçonete daquele casal!


Fez tudo direitinho, primeiro serviu Marina, olhando de soslaio para mim, depois me serviu, sem olhar para mim e saiu marchando, passo duro, revoltadíssima com a presença da rival que, felizmente, não sabia e, naquele momento, não soube de nada.


Houve um numero sem par de fenômenos desta espécie e eu não acabaria de escrever se tivesse que contar tudo o que aconteceu.


O que sei é que em determinado momento Priscila resolveu voltar para a cidade dela, que não digo para não suscitar coisas, e eu considerei um grande alivio.


Era uma viagem temporária, dois, três meses, mas seria o suficiente para eu recompor a rotina de casa e remendar os estragos feitos àquela união.


Mas Priscila morava em um apartamento e deixou muitas coisas lá.


E deixou também uma dívida.


Eu não sabia da dívida. Só soube no dia em que a “amiga” dela trouxe todas as coisas de Priscila e entregou na porta de casa para Marina, dizendo, diga a ele que guarde as coisas da mulher dele.


Eu estava dormindo.


Fui acordado numa tempestade, assombrado, buscando entender o que acontecia ali.


Fui tomando pé da situação e acabei conseguindo convencer Marina que aquilo era intriga (talvez fosse tudo em que ela queria acreditar), que era gente querendo nos separar.


Lancei Pragas, Éditos, Maldições…


Mas Marina continuou mexendo nas coisas de Priscila e acabou encontrando uma prova definitiva:


Uma carta.


Uma carta ardente, com a minha singela caligrafia.


Este era um documento impossível de se desvirtuar.


O mundo ruiu sobre mim.


Eu, envergonhado, confessei tudo e ouvi o diabo.


Era merecido.


Deixei a casa levando apenas pertences pessoais, incapaz de sustentar um olhar na direção dela e fui morar na casa de um amigo, cujo nome não menciono, pois não sei se tenho liberdade para tanto.


Ele e sua esposa me receberam de braços abertos.


Priscila voltou.


Tentei ter alguma coisa com ela, mas foi impossível.


Para que ela não voltasse para a noite liguei para o pai dela, inventei uma historia qualquer e coloquei-a num ônibus, de volta pra casa.


Passei a viver com este casal de amigos, passei por Flávia e sobrevivi mal.

Aí… Aí veio Simone.


Mas isso já é outro capítulo

Voce me acha muito amargo?

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This entry was posted on quinta-feira, julho 24th, 2008 at 15:26 and is filed under Os amores. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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