Néons Apagados
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Como precisava estar às seis da manhã no Hospital das Clínicas dormi na casa de um amigo.
Afinal, ele mora muito mais perto e isso é útil.
Acordei, ou fui acordado, às cinco da manhã.
Como de costume me vesti rapidamente e me pús a caminho.
Meu amigo mora na Rua Major Sertório, travessa da Bento Freitas, palco de minhas aventuras enquanto DJ e sonhador.
Hoje só sonhador. DJ, acho que jamais…
E para meu contristamento vi os luminosos em néon estavam todos apagados.
E eram apenas cinco da manhã!
Ah, nos meus tempos, a esta hora, a noite estava se reiniciando para aqueles que nela trabalharam a noite toda!
Era a hora do flerte, da briga por ciúmes bobos (ou sérios), do Blood Mary, com pouco Blood e muito Mary, ou um mary assim, minúsculo.
Fiquei triste.
A nostalgia se apossou de mim e pude lembrar de mim mesmo, porre amarrado, por causa de uma certa morena que se atrasou um pouco num dia em que eu não estava para atrasos…
Disso eu me ri.
Do resultado disso não gosto nem de pensar.
Perdi a morena, a vergonha e a decência por um bom pedaço de tempo.
Coisas.
Mas eu sei que é caindo que se aprende a andar e não olho para isso com mágoa e, sim, com saudades…
E olho com saudades para toda a vida que pulsou ali em casas como o Lê Masque, La Ronde, La Concorde, Chez Paul, Chez Lapine, Louvre, Choupana, Lancaster, Studio 2000, Galo Vermelho, My love e tantas outras como o Big Ben, o Love is All, La barca etc.
Uma miríade de casas noturnas abrigando um sem numero de constelações de mulheres que atraiam um incognoscível numero de homens e, com eles, o erário nosso de cada dia…
Não pensem que era mole ser garçon na Noite.
Era preciso estar esperto, ver se ninguém pretendia dar o bote e fugir sem pagar (ai destes), controlar o quanto certos clientes gastavam para evitar maiores problemas na hora do fechamento da conta e ainda controlar o quanto cada uma das meninas bebia para dar a cada uma delas a comissão justa que recebiam pelo sacrifício de beber um pouco e inundar o carpete com o resto da bebida, muitas vezes batizada…
É bem certo que havia aquelas que faziam questão de honrar cada gota que chegava às suas mãos e enchiam o pote. E lá ia eu, comme d’habittude, levar a infeliz à Santa Casa para uma tradicional dose de glicose… Muitos dos meus namoros nasciam destas seções de glicose.
Mas isso é bobagem…
Sei que a verdade é que tudo isso passou e os luminosos de néon estão se apagando mais cedo e que outros já nem se acendem mais.
Destas histórias, destas luzes, só restarão as lembranças, boas e ruins, e mais nada.
A vida que ali pulsou e vibrou, candente, já não vibra nem pulsa, não tem mais energia e os luminosos de néon se acendem cada vez menos, em quantidade cada vez menor.
Mas eu me pergunto onde estarão as pessoas que fizeram parte de minha vida, mesmo que como simples coadjuvantes?
E a voz da minha consciência me diz que estão vivendo suas vidas, alhures, com as vistas no presente e uma certa nostalgia que também vai se apagando, como os luminosos de néon…
Sei que Dayse está no Rio Grande do Sul, com o Pedrinho, que se perdeu na vida e enveredou pelo crime.
Mas amor de mulher da noite é firme e forte. Vai até a última conseqüência.
E quando não resta mais nada, se reinventa e busca mais uma chance.
Eu sei como isso é…
Sei que a Cristina (Guzu) morreu trancada, solitária, em um quarto qualquer, lá no interior da Bahia, vítima da AIDS, carregada de culpa e vergonha.
Sei que O Índio lutou muito e também foi derrotado pela AIDS num tempo em que pouco ou nada se podia fazer por quem caia nas malhas da epidemia…
Sei que uma irmã da Rosely abandonou a noite e foi encarar o serviço público e uma destas piadas do destino fez com que nos encontrássemos em um serviço de saúde qualquer…
Sei que de muitas pessoas eu não sei nada.
O Rubinho, por exemplo, viveu e deve ter morrido, em função de cuidar de sua mãe, que ele amava de todo o coração.
E sei coisas da vida sexual do gringuinho que seria melhor que eu não soubesse.
Mas a mulher dele gritou bem alto na rua, às duas da manhã, num dia de desentendimento e discórdia.
E sei que muita gente sumiu dali bem de vida e nunca mais olhou para traz, que bom, e que nem imagina que aquele lugar está, hoje, sem vida, sem nada.
O que eu não sei é explicar o que aquela moça grávida de cinco ou seis meses estava fazendo naquela esquina escura, às cinco e meia da manhã, ainda tentando a sorte, num lugar que já morreu e que poucas esperanças ainda dá…
Fui para o HC com a imagem dela na cabeça.
Não obtive no HC o que eu buscava; pouco importa, certamente dormirei esta noite pensando na vida miserável que ela, ou o mundo, impôs a si mesma.
Memórias de um homem da Noite
