Noite de Dia dos namorados na Noite
[ad#banner]
Noite do dia dos namorados.
Na minha juventude eu não tinha tempo para ter namoradas; nem vontade.
Mas eu explico. A vida que eu vivera até os dezoito anos, a infância e a adolescência roubadas me causaram muitos danos emocionais. Durante anos e anos onde a moral e o caráter de uma pessoa se forma naturalmente, com o apoio da família, o conselho do pai, a advertência da mãe eu lutava pela sobrevivência com as armas que eu possuía, e não eram muitas.
Disso resultou uma pessoa que não sabia o que era carinho e afeição pois não tinha recebido estas coisas no momento mais importante da vida.
Cheguei à “idade adulta” desprovido da capacidade de sentir.
Ao menos de sentir amor ou alguma coisa semelhante.
Eu era uma criatura que descobriu no prazer sexual a válvula de vazão para as dores do passado.
Em verdade, eu sei que a cada mulher conquistada e abandonada o que havia era a busca do carinho de minha mãe, que me abandonara sob o jugo de um pai de caráter duro e violento sabe-se lá ao certo porquê.
Então eu não namorava.
Eu seduzia, tomava, saqueava, incendiava e abandonava.
Um bárbaro emocional. Um delinqüente emocional.
Amigos e amigas, eu tinha uns poucos.
Eu sempre fui uma pessoa difícil, que leva tudo a ferro e fogo e não é qualquer um que consegue conviver com meus humores, sempre sujeitos a chuvas e trovoadas.
Mas, enquanto trabalhei no Le Masque como DJ e chefe de 60 mulheres (praticamente todas passaram por mim ao menos uma vez) eu tinha uma amiga chamada Josi, que era recepcionista da casa.
Ela recebia os clientes, encaminhava para as mesas, chamava o garçom da praça (restaurante e boates são dividido em praças e pra cada praça um garçons e cada três praças um cumin), providenciava a acompanhante e voltava par a portaria.
Era muito popular, pois o dinheiro entrava e circulava em todas as direções passando sempre por ela, que dividia tudo fraternamente, mesmo quando a fraternidade parecia-me impossível.
Josi o nome dela, eu já disse, mas convém repetir, pois muito ela fez para melhorar esta criatura que ora vos escreve com esta cara de pau tão peculiar.
Como lá pela meia noite ela não tinha mais o que recepcionar, começava a fazer salão. Um drinque aqui, outro ali, ela não fazia programas, não importando quanto lhe oferecessem, engordava a carteira com a comissão dos drinques que ela malhava nos vasos e carpetes da boate sem muita cerimônia.
Deve se ter percebido que eu observava Josi com grande interesse e este interesse vinha da absoluta impossibilidade de conquistá-la…(…)…
Mas éramos grandes amigos e lá pelas três da manha eu pedia a ela para me ajudar com a iluminação de um show que rolava toda madrugada.
Eu soltaria o show e a iluminação dormindo, mas a presença dela valia esta mácula profissional.
Virginiana, era o paraíso intelectual de um Pisciano.
E ela sempre vinha com a conversa:
“E ai? Já resolveu quem vai ser hoje?”
“Tá difícil, tem três ai que eu to de olho, mas não me defino e vou acabar indo dormir sozinho”
E ela me pedia que identificasse os alvos e dava-me a ficha completa de cada uma, o que as vezes era apenas chover no molhado ou ter uma segunda opinião sobre o que eu já sabia.
Mas ela sempre me ajudava a me definir por uma delas e esta acabava sendo a vítima da noite…
E assim era noite após noite durante anos e só as mais escoladas escaparam de mim e de minha sede de sexo.
Está claro que eu não tinha tempo para namoradas.
Ea Josi trabalhava este aspecto.
“Você nunca pensou em parar com a correria? Dar um tempo, descolar uma destas que você acha gatíssima e tentar fazer vida? Namorar?”
Eu a olhava como se visse um demônio.
“Deus me livre!”
Eu não quero compromisso com ninguém, o único compromisso que eu tive só me ferrou e eu não quero outra Teresa em minha vida!
Estou bem assim, eu levo a vida a vida me leva e não chegamos a parte alguma.
“Se você pensa assim…”
Esta conversa se repetia sempre, das mais variadas maneiras mas o final era sempre NÂO.
Ela me apresentou mulheres belíssimas, que teriam me dado o mundo. Levei-as para a cama, como era inevitável e as deixei no dia seguinte para nunca mais voltar.
Faltava algo em mim…
Certa noite, noite de dia dos namorados, eu vi que a maré estava baixa, que não ia rolar aquela noite.
Lá pelas duas da madrugada Josi, que se fizera ausente por toda a noite, nem a bolsa guardara comigo, apareceu com um pacote descomunal:
“Guarda pra mim?
Olha? (era o meu bebe)
Não é lindo?
Ganhei do meu namorado! E você, o que ganhou?…
Ah, é verdade, você não namora… está sozinho hoje porque todas as que se envolveram com você ou estão magoadas de mais para te dar um cravo ou te odeiam o bastante para te dar uma coroa de flores…
Hoje eu não tenho tempo para você, vou ficar com meu namorado.
De manha eu pego o meu bebe…”
Meus olhos chispavam.
E chispavam porque no meu íntimo eu sabia que estava errado e ela certa, e que aquela noite eu amargaria sozinho.
Mas foi uma noite importante.
Semanas depois eu conheci (isso precisa ser esclarecido) Gabi e vivi com ela pouco mais de três anos. Talvez um dos melhores períodos de minha vida, fora este que vivo agora, pois se porto HIV, se tenho catarata nos dois olhos, se ando de bengala e não sei se vou ter dinheiro para pagar todas as minhas contas amanha ou depois, sei que tenho a minha esposa e não quero outro prêmio na vida.
Com todas as dificuldades, estes últimos nove anos têm sido os melhores de minha vida.
Graças a Josi, é claro.
E ela?!
Não sei.
Mas dizem que o sujeito que deu um bebê de plástico para ela queria mesmo um de verdade.
Uma noite ela me disse estar grávida. Disse que me amava muito e que jamais esqueceria a criança levada que eu era.
Beijou me o rosto, disse me adeus e nunca mais voltou.
Espero que esteja vivendo, como eu, os melhores dias de sua vida., e que os próximos sejam ainda melhores…

