O Toureiro
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Quero falar a respeito de um amigo distante no tempo e no espaço.
Ontem estive em sampa.
Saí do HC por volta de meia-noite e, antes de ir para o meu hoteleco, dei uma passada em uma rua muito freqüentada por mim durante uma década.
Era minha casa a rua Bento Freitas.
Lá estava tudo; meus amigos, inimigos, namoradas, afetos e desafetos. Minha vida, enfim…
E passei por lá com olhos sôfregos e nostálgicos, em busca de algum rosto conhecido.
Havia alguns, mas nada assim importante, coadjuvantes… Gente com quem mal conversei.
Curiosamente, o grosso da tropa sumiu.
Acho que tomaram juízo.
Mas não pude deixar de me lembrar de um velho amigo, o Toureiro. Era mesmo um toureiro!
Porteiro do Le Masque, vivia de tourear bêbados e malucos que queriam entrar à força na casa noturna.
Missão ingrata a do toureiro…
Com muito bom humor, aliando isso aos seus cento e noventa centímetros de estatura e aos cento e seis quilos de peso, procurava manter a paz na porta.
E admito que conseguia-o.
Um gentleman.
Quando chovia, sacava de um imenso guarda-chuvas, que mais parecia uma tenda árabe, e protegia da chuva cada uma das meninas que chegava, a pé ou de táxi, para mais uma noite de trabalho; quantas vezes não o vi, alta madrugada, encaminhando-se, num táxi, para a santa casa de misericórdia, para uma das habituais seções de glicose que se faziam necessárias de vez em vez…
Essas meninas…
Quando conheci o toureiro, em 1982, ele me parecia um homem bastante feliz.
Mas me contaram que ele já havia sido mais feliz.
Tivera, ele, uma mulher muito amada, a quem chamava “boneca de trapo”.
Quem conhece a letra da música sabe… boneca de trapo/ farrapo da vida/ que vive perdida/ no mundo a pecar/ farrapo de gente/ que é inconsciente/ peca só por prazer/ vive para pecar…
E, lá na frente…
“Que sai pela noite, e amanhece na rua, e há muito não sabe o que é luz solar…”
Dá para avaliar o quanto foi conturbado o amor do toureiro.
Contam os amigos que o conheciam então, que ela morreu num acidente de carro, e ele ficou triste por muitos anos.
Nunca mais pôde se recuperar.
Mas me parecia feliz.
Tudo é ponto de vista.
O que sei é que nunca o vi com uma garota.
Estava sempre só.
E, na noite, isso é um evento raro.
Namorávamos um dia.
No outro já dormíamos juntos.
Se você dormisse três noites consecutivas com alguém, estava casado.
Se dormisse com outra pessoa enquanto casado, só não valia ser apanhado, o que era quase impossível e o casamento, às vezes, acabava; às vezes aumentava de tamanho.
A vida às vezes é bastante simples, basta querer.
Por isso eu estranhava a solidão dele.
Mas quando me explicaram a historia, entendi que ele não esquecera a sua esfarrapada boneca.
Meus respeitos.
E ele levava a sua vidinha. Tinha já uns setenta invernos sobre si e trabalhava, toda noite, com muita dedicação.
Não poderia correr o risco de perder o emprego; como trabalhador da noite, nunca tivera direitos trabalhistas.
É assim que funciona.
Mas ele fazia o que fazia com muito amor, há mais de cinqüenta anos…
Chegava às sete e meia, varria a calçada, dia sim dia não, lavava-a.
Colocava seu terno cinza, muito bonito, e iniciava sua labuta até as quatro, cinco da manhã.
Às vezes, seis horas.
Depois, porque ninguém é de ferro, ia até o bar do seu Chico, que não fechava nunca, e tomava seu conhaque, que era de lei, e ia para sua casa, ali na rua Santo Antônio, dormir.
Posso dizer que eu, à minha maneira, amava o toureiro.
Gostava muito daquele homem velho e sábio, que para tudo tinha uma resposta pronta e que não se intimidava com nada.
Acostumei-me a vê-lo ali, na porta do Le Masque, postura digna, gentileza e afabilidade à toda a prova.
Foi por isso que, certa noite, ao não vê-lo ali, fiquei muito preocupado.
Não chegara o toureiro.
O que teria acontecido?
Eu não sabia, mas, na manhã anterior, ele voltou para a sua casa, na verdade um modesto quarto de pensão, deitou-se e foi acometido de um ataque cardíaco fulminante.
Morreu dormindo o toureiro. Que bom, espero apenas que não tenha doído!
Finalmente, tenho certeza, ele pôde se reencontrar com sua boneca de trapo.
Acho que ela estava esperando por ele, ao lado da cama, e que, depois do enfarto, ele “acordou” sobressaltado e perguntou:
-”Você voltou? “E ela, belíssima, sorriu:
“-Não, meu amado, não voltei, foi você quem voltou para casa…”
Tomou-lhe o braço e partiram, rumo a vôos mais altos, ele, com a juventude recuperada em todo o seu viço…
Acredito que estão juntos e felizes.
Era mesmo um grande homem este toureiro.
Toureava pessoas.
E me ensinou uma grande parte do pouco que sei.
Rendo-lhe minha homenagem.
TOUREIRO (nunca lhe soube o nome), OLÉ!
***********ROSAS VERMELHAS CAINDO…..**********
