Para Rozângela, Zanza ou Zonza…

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Ontem o work-a-holic aqui estava trabalhando, por volta das dezesseis horas. Ai me deu um rompante. Eu tenho vários playlists do winamp, todos muito bem organizadinhos.

Por tipo; MPB, por gênero;Rythim and Blues.

Por época, 60, 70, 80, 90, e outras classificações.

Bem, por esta hora me deu vontade de continuar trabalhando, mas ouvindo musica.

Olhei no desktop e atirei a esmo: 80.

Dois segundos depois ouvia a voz de Taylor Dayne reproduzida a dizer: Make a round!

E a musica começava. Era “Tell it to my heart”, numa versão house mix com quase 8 muinutos.

Eu continuei trabalhando

Mas não deu. A música foi me levando para o passado, a tela do monitor foi esmaecendo e, num repente eu estava, imaginem, na cabine de som do vagão plaza, onde fui Dj por cinco anos.

Na pista, ela, Rosângela, que eu chamava de Zanza ou Zonza, conforme os meus humores. As expressões faciais dela também variavam ao som de cada um destes vocábulos.

Zanza dançava, muitas vezes, com a minha jaqueta. Era a forma que ela tinha de dizer, e eu de ratificar, que tínhamos algo (algo que no futuro do pretérito eu descobriria ser sério.

Mas não pretendo me adiantar em ocorrências.

Vamos, antes, saber como eu cheguei a Zanza, ou Zanza chegou a mim.

Eu estava ligado numa certa morena, Márcia, que me dava uma pala e saia fora. Era difícil acessar Márcia. Mas eu percebi que Rosangela e Márcia estavam sempre juntas.

Naturalmente, como bom caçador, atraí Rosangela para mim.

E entrei com a velha conversa do “Pô! Da uma força vai? Não custa nada!!!”

E assim se estabeleceu o correio.

Mas o correio não trazia boas notícias, as coisas eram medianas e pelos relatos de Rosângela eu perdia terreno a cada dia para um rival misterioso.

Uma bela noite, por volta das 20, Rosangela veio até a cabine e me disse algo acachapante, definitivo, que mostrava que acabaram-se todas as minhas chances. Disse qualquer coisa neste sentido e ela respondeu:

“Acordou? Finalmente? Idiota….”

E saiu andando. Acho que todos que me lêem tem, agora, a mesma impressão que eu tive naquele momento.

Nunca houve ponte. Rosângela estava interessada em mim. E se disse alguma verdade em sua “missão”, deve ter manipulado palavras (ela nunca confessou, nem sob cócegas) de maneira a inviabilizar o casal Claudio e Marcia.

É da natureza feminina eliminar rivais com eficiência e sutilidade.

Mas eu fiquei com um problema. Como, àquela altura, depois de tudo o que disse, fiz, confessei e mandei por ela à Márcia, tentar seduzi-la ou conquistá-la?

Isso é o diabo…

As noites foram passando e a Rosangela ficou à meia distância, nem lá, nem cá. Certa noite resolvi convidá-la para ir ao “2000”, uma casa de fim de noite onde eu gozava de particulares regalias.

Ela aceitou o convite por inusitado. Nunca foi até lá.

“Eu topo, me pega na porta do Kilt.”

Ai foi outro drama, ela saia antes e a espera dela na porta do Kilt poderia não passar de um embuste, um castigo, uma ponta de frustração para que eu sentisse um pouco do que ela sentiu enquanto eu a fiz de idiota e, na verdade, o idiota era eu.

Foi demorado.

Mas ela estava lá.

Descemos a pé.

Conversamos.

Eu fiz alguma menção sobre ter percebido tardiamente que eu tinha diante de mim durante todo aquele tempo a possibilidade de ser feliz e a desperdicei com alguém que, no fim das contas, de nada me valera.

Ela concordou, com indisfarçável satisfação.

Concordou e disse que nem tudo estava perdido, que poderíamos conversar e se eu me mostrasse digno, poderia ter minha chance.

Eu fui digno.

E começamos um romance à la noite, onde se pode quase tudo…

E ela adorava tell it to my heart.

Por isso eu tocava a musica duas vezes na noite.

Quando você é o Dj, você pode tudo pela sua amada.

E ela dançava. Usava um perfume marcante. Poyson, Dior.

E eu a pressentia pelo perfume que sempre chegava antes dela…

Ainda hoje, quase duas décadas depois, sou capaz de reconhecer poyson a metros de distância.

Poucas mulheres podem usar poyson.

É um perfume forte, rascante, feminino e, no entanto, viril, despertava em mim as coisas mais loucas.

Fomos levando a vida e a vida foi nos carregando por quatorze meses…

Ai veio o desgaste e tomamos rumos diferentes.

Não choramos. Não nos lamentamos.

Passamos um ultimo final de semana trancafiados num quarto de hotel e abrimos uma Moet Chandon para brindar ao que tivemos.

Bons tempos estes em que eu podia abrir uma Moet Chandon para comemorar o término de um romance.

Fizemos amor como loucos.

Possuímo-nos como loucos, percebemos, tardiamente que, na verdade, nos amávamos.

Mas já tínhamos feito as nossas escolhas e a roda do tempo não se gira para trás.

Era tarde.

Os compromissos por ela assumidos eram irreversíveis e a vida tinha de seguir seu rumo. Cinco dias depois embarcou rumo à Europa, para um pais que não direi qual é.

Mandou-me algumas cartas.

Eu as respondi.

Depois as cartas se rarearam, e eu, na ultima que recebi dela, resolvi libertá-la.

Respondi dizendo que era tempo quebrar os últimos laços e que ela estava livre do dever de ex-amante de escrever cartas.

Ela mandou um telegrama quase enigmático: OBG PT T A PT ZANZA PT ATE a vis PT

E nunca mais soubemos um do outro.

Acabou.

Mas ontem, quando me lembrei disso, confesso que eu chorei.

Como confesso que choro agora.

Chorei ontem, pela vida que tive e que perdi.

Choro hoje, a constatação do imutável:

“É para a frente que se anda e Zanza está no passado.”

Poderíamos ter nos casado.

Poderíamos ter tido filhos.

Poderíamos estar envelhecendo juntos.

Poderíamos, agora, estar em qualquer lugar do mundo, juntos, tomando uma Moet Chandon, ou uma água mineral com gás e gelada até a morte.

Acho que esta semana vou comprar um vidro de Poyson, Dior, e abri-lo uma única vez, para sentir o odor que me embriagou tantas vezes.

Depois, como faço com tudo o que ganho ou que me traz lembranças, eu o guardarei até o fim dos meus dias…

E, vez por outra eu o abrirei.

E vez por outra eu chorarei também.

Porque são muitas as quais por quem eu tenho o que chorar.

Depois que sofri a embolia pulmonar e me vi face a face com a morte, tomei a súbita consciência que estar vivo é um privilégio, uma benção que Deus nos concede.

Eu, que trilhei caminhos tortuosos, cheios de perigos, riscos e algumas dores, posso dizer, sem medo de errar ou mentir, que sou um homem privilegiadíssimo.

Fui brindado por Deus com mulheres muito especias.

E, como diz no bolero, se eu guardo teu sabor, certamente levarás, certamente, sabor a mi.

Zanza! Ou Zonza…

Um brinde a nós.

Ao que fomos

E ao que poderíamos ter sido.

Tudo está no seu lugar.

Saudades.

Cau

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This entry was posted on sexta-feira, julho 18th, 2008 at 07:11 and is filed under O aprendizado na noite, Os amores, Sem categoria. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Responses to “Para Rozângela, Zanza ou Zonza…”

  1. Helo Says:

    Lindíssimo….
    Eu vejo na sua história muito das coisas que vivi.
    Confesso que me emocionei muito.

    Abraços e continue escrevendo.

  2. rosangela Says:

    fiquei sem sono, e como amo meu apelido fui pesquisa-lo na inter, e encontrei sua historia linda, é incrível, meu nome é ROSÂNGELA, meu apelido é ZANZA, e quando bebo alguns amigos me chamam de ZONZA.

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