Sombras
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A ultima vez que mandei noticias da casa da matriarca foi ontem de madrugada, antes de tentar dormir. Digo tentar porque dormir que é bom, só depois das quatro.
Lembro-me que contei que houvera uma movimentação intensa, quase uma festa e que os varais estavam misteriosamente vazios. Lembro-me também de ter dito que esta situação se reverteria hoje.
Pois bem. “Amanheci” às oito horas, sem saber de mim absolutamente nada. Custou muito para que meu pobre cérebro voltasse à vida e me dissesse: “Calma, você é o Cláudio e não uma alcachofra”. Confesso que tal alerta foi um alívio, posto que não almejo a posição de alcachofra.
Deviam ser nove horas quando eu me vi “senhor de mim” e, para não perder o costume sórdido, vim à minha janela e…?
Os varais estavam cheios. Tremendamente cheios. Uma profusão de lençóis, calças, fraldas, camisas, camisolas, meias, roupas íntimas (estas eu não descrevo para não enrubescer as senhouras, mas que me detive nelas, me detive sim), uma miríade de artefatos de pano, todos limpos, secando ao sol invernal…
A mulher começara seu dia muito cedo. E já tinha adiantado o serviço deveras… E meu dia sequer havia começado.
Ainda pude notar que aquela outra senhora, bem mais idosa, estava “quarando” ao sol em sua cadeira de rodas. Fico me perguntando se a Matriarca não tem alguns exageros e não quara a própria mãe como quem quara a própria roupa…
Com estas elucubrações saí de casa e caminhei até o ponto do ônibus. Este me leva direto ao hospital; mas exige uma caminhada de dois mil metros. Normalmente eu faria isso numa boa, tranqüilo; mas, infelizmente, as coisas não andam normais.
Para que se tenha uma idéia não há um funcionário do hospital que já não me conheça pelo nome. Isso é um péssimo sinal. A aparente popularidade significa, na verdade, uma grande assiduidade.
E como tenho sido assíduo ao ambulatório!
E como tem sido inútil esta assiduidade!
Viver, meus queridos leitores, é uma arte complexa. E a vida em si, não no aspecto filosófico, mas no biológico, é um verdadeiro milagre. Tudo concorre para que ela se acabe.
Estamos na quarta semana, creio eu, e no terceiro antibiótico, disso tenho certeza, e nada faz a pneumonia retroceder.
Não quero ser internado. Prefiro morrer aqui, fitando a Matriarca, diante de meu computador, sufocado em secreções pulmonares a me tornar mais um albergado do Hospital das Clínicas…
É orgulho? Não. É medo. Dentro de um hospital que atende mais de dez mil pessoas, talvez trinta mil, por dia, o sofrimento humano se banaliza e o meu seria apenas mais um.
Eu seria apenas mais um.
Não quero isso para mim. Não quero isso para ninguém e, honestamente, nada mais digno que expirar em paz ou em agonia, dentro de seu lar.
Acho que é isso que espera a senhora da cadeira de rodas, provável mãe da Matriarca.
Acho que é isso que desejo para mim. Depois quero ser cremado e que minhas cinzas sejam jogadas num jardim da Praça da República, no centro de São Paulo, onde poderei servir de adubo à relva e me perpetuar em verde.
Estou triste. Triste e amofinado. Por cima da pneumonia vem a possibilidade de mais uma coisa, também no pulmão, e tudo vai se agravando de tal maneira que ouso dizer que chego a ter medo.
Mas, medo de que? De morrer? Já estamos mortos, posso afirmar. Socialmente, os portadores de HIV estão mortos e nem toda a fé da Matriarca poderia remover esta montanha. Nem mesmo toda sua capacidade de engendrar e laborar poderia resolver este enigma, desmistificar este estigma.
Acho que tenho medo da dor. Pois já dói um pouco, e está só no começo.
Fico aqui escrevendo, parágrafo após parágrafo, buscando alguma coisa boa a ser dita, mas não encontro!
Só vejo a casa da minha já querida vizinha, tão cedo, vinte e três horas, completamente às escuras.
E as sombras que se fazem lá também se fazem aqui.
Estou perdido num labirinto que eu mesmo criei.
