Um homem bêbado e uma questão

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Saí mais do trabalho hoje. Concessão do chefe, que viu o serviço do dia terminado e eu jogando paciência para fazer o tempo passar.

Ele me disse: “cara, vai pra casa, se você está fazendo em seis horas o que outra pessoa não fazia em dez comece a chegar as 8 da manha e sair às 5 ou até mesmo 4 e meia. O que me interessa é produção, não carga horária…”

Diante de tanta bondade sorri.

A alegria consistia em estar livre do trafego na Brás Leme inteira, tanto quanto na Avenida Rudge, dois corredores para o inferno.

Pois foi na Brás Leme que ele entrou no ônibus.

Bêbado.

Uma mancha de sangue no rosto, ressecada.

Pensei:

“Sangrou sabe Deus porque até que parasse de sangrar…”

No ônibus iniciou-se uma pequena revolta.

Todos manifestavam asco, impulsos de por o homem, era, ainda, um homem, para fora do ônibus.

É certo que aquele ônibus não o levaria para casa, levaria, sim, para um local mais perigoso, na periferia de São Paulo; então, talvez fosse bom que ele fosse colocado para fora do ônibus.

Mas o móvel que carreava aquelas pessoas não era esta intenção piedosa de poupa-lo de perigos.

Era, sim, a de se ver livre de um inconveninete homem bêbado, que ria com sarcasmo (perfeitamente justificável) de tudo e de todos, debochadamente, na sua embriaguez.

Eu me perguntei que drama ia por aquela vida.

Quanta gente não vi, aparentemente saudável que se encaminhava silenciosa e paulatinamente à loucura ou o suicídio?

Quanta gente aparentemente centrada eu não vi cair em desatinos.

Quantas vezes eu mesmo não desatinei e despenquei por resvaladouros de loucura e demência que muito me custa lembrar e saber…?

O que há com aquele homem?

Nunca saberei. Nunca sabereis.

O que sabeis é que ele estava bêbado, numa perigosa avenida e entrou num ônibus de onde todos queriam expulsa-lo.

Isso me faz refletir no quanto somos mesquinhos uns com os outros, vendo, sempre, o lado ruim das coisas sem se perguntar se, estando cada um de nós no lugar daquela pessoa, não faríamos algo semelhante ou ainda pior…

Apressamos-nos em catalogar e caracterizar como inconveniente qualquer coisa que saia do padrão estabelecido por normalidade e, por conseguinte, expulsar de nosso âmbito.

Ninguém para pensar a ferida daquele homem.

Ninguém sugeriu uma parada num pronto socorro.

Ninguém pensou em acudir aquele que, em síntese, é um homem.

bebado

Mais fácil expulsar, largar na sarjeta, ignorar e tocar a vida adiante, como se estivesse, como dizia o poeta Raul, “contribuindo com a nossa parte neste quadro social…”

E esta linha de atitude condicionada não se mantém apenas e tão somente com aquele bêbado.

O negro é excluído.

O pobre é excluído.

O miserável é excluído.

A mãe solteira é excluída numa sociedade que condena o aborto.

As crianças, em geral, não recebem educação adequada por parte de pais e professores…

Ah… É cansativo fazer a lista de misérias que impomos a nós mesmos e nossos descendentes.
Pois é isso que fazemos hoje: Construuímos o mundo de nossos filhos e nossos netos.

Criaturas que, no mais das vezes, amamos…
Foi apenas isso o que eu vi no rosto manchado de sangue daquele home que nem mesmo eu acudi…

Mas, se não pude, por imperícia, preguiça ou inépcia, socorrer aquele homem, posso, ainda, lançar, com base nestes vaticínios, uma breve pergunta:

“Que mundo estamos construindo?”

E uma sub questão:

“Gostaríamos de viver nele?

Cada um que fale por si…

This entry was posted on sábado, julho 19th, 2008 at 06:51 and is filed under Minhas observações. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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