Um Tipo
[ad#banner]
…desci as escadas rolantes do metrô na praça da Sé e embarquei no primeiro trem, com destino a estação república.
É um trajeto curto, duas estações. Anhangabaú e República; uma viagem de 5 minutos, no máximo. Entrei distraído e distraidamente apanhei um fragmento de conversa:
– “Nós vamos descer logo, pode ficar sentado.”
- “Eu também vou descer logo e já não faz sentido sentar-me novamente.”
Era um senhor, visivelmente agastado com uma situação tão corriqueira. Parou diante de mim, meio que de lado e pude observá-lo (tenho este hábito infeliz de observar pessoas, que deve ser a origem deste outro hábito infeliz, o de escrever mal).
Vestia uma camisa azul com gola role e, por cima dela, aberta, uma camisa cuja estampa é digna de Kubanacan; as calças e os sapatos eram brancos.
Pensei: “Ele é daqueles tempos em que a boa malandragem usava sapato branco. Importa informar que cafetões também usam sapatos brancos e não são considerados bons malandros…”
Usava também um belo relógio e portava uma pasta transparente, repleta de partituras, a que eu podia ver era muito bem elaborada. Natural que eu deduzisse que se tratasse de um músico. Afinal, eram quase dez da noite e um homem com uma pasta repleta de partituras num trem do metrô só pode ser um músico a caminho de seu trabalho.
O trem parou, as portas se abriram e ele desceu.
Bingo!
A região do Anhangabaú ainda tem alguns bares com música ao vivo.
O homem partiu e eu poderia esquecê-lo. Mas não esqueci.
Ao contrário, me perguntei se ele, naquela altura da vida, deve ter uns sessenta invernos, tocava por amor à música, por vício ou por necessidade.
Nunca saberei responder a esta pergunta.
Talvez eu dê u
m plantão na estação Anhangabaú à espreita de encontrá-lo e segui-lo para saber ao certo…
E de repente me dei conta que ali ia uma pessoa com uma possível história, e alguns lances já previsíveis.
Certamente ele tem ou teve uma família.
Algum dia, em sua vida, deve ter surgido uma moça com olhos de garapa, ou jade, e seqüestrou seu coração. Enamoraram-se, noivaram e casaram-se. Arrisco dizer que tiveram um casal de filhos, que foi criado com todo o primor. E arrisco dizer que este casal de filhos se transformou em duas novas famílias.
Assim, transformo meu mal-vestido músico em um respeitável pai e avô.
Pensei nas alegrias e tristezas que ele pode ter tido.
Procurei imaginar que instrumento ele toca (timba não é, pois não precisa de partitura), se toca bem, o que toca, se as pessoas gostam de ouvi-lo tocar, se dançam de rosto colado quando ele toca musicas românticas ou se ele, enfim, era apenas um emissário, encarregado de entregar as partituras a um músico de verdade que não usasse gola rolê; o que não desfaria todo os liames de possibilidades que emprestei à sua vida por absoluta falta do que fazer…
Foi aí que me dei conta que já estava na estação Santa Cecília, uma adiante da que eu deveria descer…
Esta minha mania de divagar ainda vai me levar pro Alaska…
