Vera
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Há coisas em minha vida das quais eu não guardo memória ativa.
Mas isso é coisa que não vou detalhar posto que me faria corar…
Estou com um projeto em andamento lento:
Um livro.
Minhas memórias, escritas a quatro mãos com o apoio de Marcelle, que está tornando possível um sonho; o livro.
E foi numa conversa por telefone com ela que este gatilho disparou e eu me lembrei de Vera.
De Vera e de muitas outras coisas. O fato é que depois de aproximadamente 4 anos nas ruas (12 > 17) eu atingira um elevado grau de sofisticação para um habitante das ruas.
Fazia alguns bicos no mercado municipal e descarregava alguns caminhões. Isso me dava uma compleição física avantajada para a idade. E me rendia alguns trocados; não era muito, não era o bastante para alugar um quarto de pensão.
Daria para uma vaga.
Mas as vagas para diaristas são como ratoeiras e eu preferia dormir na rua, com minha gangue, a correr alguns riscos onde o menor seria acordar e se descobrir sem sapatos…
Tomava banho na rodoviária, ou pagava pelo banho em algum hotel de quinta; algumas garotas de programa lavavam minhas roupas em troca, sempre, de alguma coisa e eu vivia relativamente bem.
Tinha algumas brigas, noites passadas em distritos (fui um habituê do terceiro distrito na Rua Aurora, sempre para averiguação ou vadiagem…), tinha alguns problemas de convivência e, naturalmente, não escapava da selvageria das ruas.
Mas saía quase sempre ileso e, quando não saia, a Santa Casa era muito útil, apesar das perguntas do detetive de plantão…
Foi neste tempo, gozando de ampla liberdade e de uma boa aparência que descobri uma discoteca chamada Toco lá na Vila Matilde onde era um desfilar-sem-fim de patricinhas e mauricinhos que podiam pagar para entrar.
Mas muita gente ficava de fora, casa cheia, ingresso alto, curtindo a noite ali mesmo.
Excelente campo para caça, afirmo.
E foi ali que conheci Vera, que é o escopo deste pedaço de minhas memórias.
Vera era cinco anos mais velha que eu e, sinceramente, não sei como a conquistei.
Só sei que ela me deu telefone, endereço da escola e seus horários.
Em uma semana começamos um tórrido romance. Basicamente sexual. Pouca conversa, muita ação e, para que se diga quase tudo, nunca houve uma penetração de verdade, muito embora eu clamasse a todos os santos e todos os diabos por isso.
Mas era ótimo, delicioso estar com Vera.
Só que eu mesmo não tinha noção disso.
Não atribuía à Vera a importância que ela merecia.
E malhávamos.
Naqueles tempos, o termo era “dar um malho”.
E malhávamos bem por sinal…
Eu ficava com ela desde a saída da terceira aula até a hora do ultimo trem.
Isso se repetiu por cerca de um mês.
Até que veio o dia fatídico; de repente ela me perguntou:
“Cláudio, quais são suas intenções comigo?”.
Que poderia, eu, com 16 anos, morador de rua, responder?
Hoje eu sei a resposta. Mas na época eu não sabia e disse, pura e simplesmente:
“Estou aqui, gosto de você”.
Saibam, jovens, que estar aqui e gostar de você não são motivos fortes o bastante para cimentar uma relação.
É preciso bem mais e no dia seguinte Vera se afastou de mim para nunca mais voltar.
Ontem, sonhei com ela.
Sonhei que ela estava vestida com uma de suas saias, linda, caminhando, partindo, para nunca mais voltar. E no sonho eu constatava isso, que ela não mais voltaria que eu não mais a veria, que eu não mais a beijaria, que eu não mais a tocaria, que eu jamais a possuiria…
E esta consciência, recém adquirida no sono, me trouxe, em lágrimas, para a vigília.
Levantei-me, tomei um copo de vinho, brindei à Vera as três da madrugada e pedi silenciosamente que me perdoasse.
Que me perdoasse pelo sonho desfeito.
Espero, Vera, de coração, que você tenha conseguido encontrar algo melhor e mais sábio que eu, e que ele tenha te dado a resposta certa, que, a meu tempo, seria esta:
“Vera, eu sou jovem, e você não sabe, mas eu moro na rua. Viro-me como posso e mato um leão por dia para poder estar aqui com você. Você tem sido para mim, alívio, porto e esteio e, de alguma forma, sinto que começo a te amar. Mas, Vera, compreenda, eu ainda não posso te prometer nada, pois nada tenho e tudo me falta; não me falte você também, suplico com humildade. Vera, pudera eu e faria vida contigo; namoraria, noivaria, casaria e formaria família com filhos, netos e bisnetos se nos fosse dado viver para tanto; mas, Vera, eu não posso te prometer nada. Só posso pedir. Pedir que não vá, não agora, pois só tens me dado alegria e felicidade, muito embora eu ainda não compreenda bem estes conceitos… Assim, Vera, eu insisto em que não me abandones, por favor, e me permita lutar para tentar realizar tudo isso que eu disse que gostaria de fazer… Sim, Vera, sim, você pode, com sua simples presença, tornar este menino de rua em homem e este homem, em contrapartida, certamente a realizará como mulher”.
Se eu tivesse dito isso talvez ela fosse embora, talvez ela ficasse.
Se ficasse, minha vida teria sido outra e eu não estaria aqui, agora, perto do Horto Florestal, escrevendo a esta hora da noite.
Estaria em outro lugar, não portaria HIV (eu acho que não, mas não tenho certeza), não teria conhecido Gabi, Cecília e tantas outras.
Mas, possivelmente, teria sido feliz com Vera.
Ou não.
O futuro-do-pretérito a Deus pertence e nós nunca saberemos como seria se não fosse…
Se você me lê, Vera, e consegue reconhecer-se nesta história, saiba que eu guardei você em meu subconsciente por 24 anos e ao lembrar de você a sensação é de perda e de luto, como em quase tudo em minha vida.
E, sinceramente, me perdoe.


