| Também tive a minha boneca de trapo.
Chamava se… Bom, ela era conhecida como Gabi.
Gabi era morena, jambo, uma pérola. Tinha um metro e setenta e três de altura e nenhum grama a mais em lugar nenhum.
Cabelos cortados a la chanel, olhos castanhos, escuros, de uma rotação lenta, bem lenta, com um vagar só dela. Deixava-se, às vezes, a olhar o mundo com aqueles olhos marrons imensos (tenho dolorosa fixação por olhos escuros) e ficava lá, como que a meditar…
Passeávamos muito. Íamos à praia quase que todos os finais de semana.
Ficávamos em Santos, na praia do José Menino, perto do píer.
Sentávamos ali e ficávamos olhando umas gaivotas que lutavam pela comida disponível e os navios, imensos, que iam e vinham… Passávamos horas ali, abraçados.
Gabi me ensinou, sem dizer uma palavra, que o mais danoso sentimento que temos é o da posse.
Ao julgarmos que possuímos alguém ficamos cegos de orgulho e não compreendemos mais nada.
Eu sou (era), por minha natureza colérica e furiosa, uma pessoa bastante ciumenta, muitas vezes irracional.
Imaginem isso ao lado de uma garota de programas… Mas eu a amava, e ela possuía suas ambições e necessidades, que eu não poderia suprir.
Coisas.
Devia me amar demais a Gabi, já que suportava com relativa paciência minhas crises, meus ciúmes e algumas mesas viradas aqui e ali. Tínhamos um acordo, que eu demorei muito a cumprir direito.
Eu não deveria, jamais, entrar no Michel antes das quatro da manhã.
Só que eu não agüentava isso e acabava entrando. Nem sempre era muito feliz em minha chegada…
Descobri depois que ela tinha armado um imenso esquema de vigilância que visava apenas mantê-la informada sobre a minha localização na rua.
Se, por algum motivo, eu me aproximasse a menos de trinta metros do Michel, onde ela trabalhava, este alarme disparava e ela procurava disfarçar, me receber na porta, me cobrir de beijos e tocar a noite pela frente.
Quatro da manhã lá estava eu.
Amava Gabi. E ela me amava também. Mas… Mas estávamos os dois enlouquecidos pelo brilho das luzes e nada nos afastava da noite.
Mas nós amávamo-nos como loucos e aos loucos tudo se perdoa, ate mesmo o amor conturbado.
Não é fácil para eu descrever a Gabi fazendo um Streep Tease, mesmo agora, mais de dez anos depois. Só posso dizer que ela não olhava para ninguém, que ela se destacava de si mesma e se esquecia de quem era. Durava de cinco a nove minutos, mas era de matar.
Acabava-se a noite e íamos embora; amávamo-nos, almoçávamos, jantávamos e ao escurecer estávamos lá, firmes, para mais uma noite de desvario; mas, acima de tudo, amávamo-nos. Entrava dia, saía noite e amávamo-nos… Foi assim por quase três anos. Por três anos pude ser fiel a uma mulher que me era fiel tanto quanto o possível.
A fidelidade dela se expressava em outras atitudes, como a de erguer a voz e me defender onde quer que falassem meia palavra torta sobre mim; a fidelidade dela se expressava na manutenção firme do compromisso: quatro da manhã, venha me buscar (ela nunca faltou à sua palavra).
Foi ela que, quando caí da moto, cuidou de mim, durante três meses, até que eu pudesse voltar a andar e a trabalhar. Tínhamos, então, 25 e 24 anos e acreditávamos que um dia sairíamos dali, juntos.
Fomos leais um ao outro em tudo o que poderíamos ser, e isso era muita coisa, tendo em vista o que vivíamos. Um dia ela me disse: nestes dois anos, nunca consegui beijar outro homem. E estas palavras ainda calam fundo em meu coração.
Não conto a vocês por que acabou. Um dia, acabou, tomamos rumos bastante diferentes na estrada da vida… Doeu muito, e pela primeira vez, enchi o pote. Foi um porre homérico. Mas, ainda hoje, me lembro dela aqui, com seus olhos imensos, escuros, como que a possuírem uma tempestade em gestação… Lembro-me de sua voz, de seu toque e de seus beijos, que foram só meus, durante mais de dois anos. Lembro-me do cheiro de seus cabelos, de sua pele, de você…
Amava-te, Gabi.
E, tenho certeza, me amastes também.
Muitas saudades.
DJ
(era assim que ela me chamava) |