Acabou-se o espetáculo
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Quando esta foto foi batida eu já estava neste mundo há seis meses e meu pai declarava-me “um espetáculo”.
Há uma outra foto, que não sei por onde anda, em que ele diz, com sua caligrafia firme e resoluta, que “por mim, daria sua vida”…
Uma grande mentira.
Isso me faz pensar que boas caligrafias são como águas puras, podem carregar qualquer coisa…
O fato é que a medida em que crescia a disposição mudava e não tardou muito para que se revelasse o meu verdadeiro pai em toda a pujança de sua violência desmedida e injustificável.
Olhando a foto agora, quarenta e três anos e um mês após o passarinho, vejo que muito se perdeu desde então.
Ao longo dos anos eu perdi a ilusão.
Perdi as ilusões, não me apetece sonhar e o único grande esteio, sol de minha vida, é minha esposa, cujo nome não grafo para não ligá-la a uma pessoa portadora de HIV.
Dias, talvez meses atrás, um amigo disse-me que “somos todos vitimas de nossos pais e que nossos filhos são as nossas vítimas, num moto perpétuo de dor e dissolução.
Ouso discordar e ter esperança. O bar esperança é o último que fecha mesmo…
Depois que soube-me portador de HIV tentei de diversas maneiras reentabular o dialogo e mesmo o afeto com meu pai que, ainda hoje, é uma figura que assusta (talvez assuste muito a mim que conheço o peso de seu punho e seria incapaz de revidar ou mesmo me defender se ele repetisse os gestos de outrora).
Enfim, nada deu certo e eu desisti,
Cerca de seis meses atrás mudei o numero do telefone de casa, proibi a divulgação e apaguei os números dele de todos os pontos em que estava registrado.
Acabou-se o espetáculo, meu pai, não tornarás a me ver.
Não saberei de tua morte e nem saberás da minha, não importa quem morra antes.
Entre nós, agora, só a mediação de Deus.
E estou severamente indisposto….


