Crônica de uma noite muito longa (original de 2001)

Nota do autor: Este texto foi escrito na noite de Natal de 2001 por volta de uma da manha, quando me sentia especialmente infeliz… Infeliz em virtude de algumas perdas emocionais e do finalmente “romper da barragem” que fez com que toda a dor de ser eu inundasse cada poro do meu corpo, cada milímetro da minha alma.

Não há uma preocupação minha com os que leriam ou lerão o texto, que foi distribuído por e-mail.

Há apenas a dor.

E a dor fala por si.

Claudio cau@soropositivo.org

Sent: Tuesday, December 25, 2001 1:20r 25, 2001 1:20
English: World English Bible - WEB

Izbrano poglavje ne obstaja!

AM

Subject: Crônica de uma noite muito longa.

…e então, de repente, os sinos repicaram.

Estes sinos costumam badalar muito às 18 horas e quase não me incomodam.

Mas desta vez foi diferente. Eles repicaram e ressoaram a hora suposta em que nasceu o Cristo.

Simultaneamente, gritos em toda a parte:

“Feliz Natal!!!!”

Não pude ouvir, mas sei que muitas garrafas de champagne estouraram, que muitas taças se tocaram, muitos abraços foram trocados, sorrisos, apertos de mãos, “ressentimentos subitamente sanados”, vidas renovadas…

Então, incomodado com meu deserto particular onde não há noite ou dia aparente, saí, mais uma vez, para as ruas.

Tudo aparentemente deserto. Ninguém à vista. Pura ilusão. Nas calçadas, nas praças, nos becos, nos canteiros das avenidas, campeia a miséria, a dor, a dissolução…

Não que eu ainda me importe com tudo isso, já vi e vivi demais para me incomodar com o caos.

Caminhei indiferente, não sei quanto tempo, nem por quais ruas e nada que visse me importava.

Alguém fez menção, um leve movimento em minha direção.

O lobo que habita em mim me alertou sobre um possível assalto.

Automaticamente me encaminhei na direção do infeliz que vinha com a infeliz idéia e dei a ele a clara noção do problema com que se defrontava; na verdade, esperava muito que ele possuísse uma arma.

Não possuía, pediu um cigarro, disfarçou e se afastou bem mais rápido que se aproximou…

Mas aí já era tarde, o lobo já havia despertado; já não era apenas eu nas ruas.

Era eu e meu lobo interior, o velho e infeliz lobo.

Instintivamente olhei para o céu, em busca da lua.

Quarto crescente. Não, não é dia de uivar, lobo maldito, é dia de vagar sem rumo, sem destino, de olho no caminho, onde pode aparecer qualquer coisa, até mesmo uma poça d´água…

Não é bom o diálogo entre mim e meu lobo; há muito não nos entendemos.

Se o homem ainda acredita vagamente na possibilidade de vida o lobo clama pela liberdade perdida e uiva, aflito:

“Liberta-me, deixe que eu morra!!!”

Há dias venho dando uma atenção cada vez maior a este ser infeliz que me habita e não clama por nada diferente de liberdade.

A liberdade de viver… Viver e morrer, que importa?

De que vale a vida se você está morto, se já não sabe para onde ir, se cada fibra sua já foi despedaçada e você teve de reinventar, dia após dia, noite após noite, hora após hora, seus limites de resistência física e moral?

De que vale a vida se tudo o que se acumula são perdas, desastres, cadáveres, angústias, desilusões, incertezas, aflições, medos, traições…

Ainda vale a pena uivar para a lua uma vez por mês, amigo lobo, tento argumentar… Mas ele sorri um sorriso de tristeza e me faz ver em seus olhos uma lua imensa onde se projeta uma imagem que não descrevo, pois a mim pertence, mas que é eloqüente demais para que ele, o lobo, precise dizer qualquer coisa…

Assim vamos, eu e o lobo, pelas ruas, indiferentes a qualquer coisa, a tudo, até mesmo ao que não existe, o que está remoto, perdido, mergulhado nas sombras da ilusão…

No meio destes devaneios me aparece uma criança. Não sei quantos anos tem.

Pode ter sete ou doze anos, mas mirrada e desnutrida, imunda, não posso avaliar sua idade.

O que ela me pede é um trocado.

Primeiro me surpreendo com a indiferença com que olho para a criança.

Depois me surpreendo com a indiferença com que dou os trocados.

Não sei quanto dei e nem me importa saber.

Coloquei a mão no bolso, peguei algumas moedas, sem olhar, e sem olhar as entreguei à criança que nem sei se é menino ou menina.

Algo em mim congelou, pensei.

Já não tenho muita força sequer para chorar, já não tenho vontade de chorar, de viver, não tenho sequer a vontade de morrer, já não me incomodo com a miséria de uma criança.

Mas o lobo se rói, se morde e me faz pensar muito na dor de viver, de viver sem razão, sem rumo, sem destino ou, pior, com um destino aparentemente demarcado…

Andei muito tempo e já estou aqui.

A meu lado, o velho recurso de sempre, centenas de miligramas de substâncias que podem ser boas ou más, depende de como se usa as mesmas.

Olho cada uma delas com indiferença.

Não farei isso.

Morrerei sim, mas aos poucos, de dor, de insuportável, inenarrável, indescritível e cruel dor…

Pelo menos é isso o que decido nesta noite.

Amanhã, outro dia, outra luta entre mim e o lobo.

Quem vencerá?

Não sei.

This entry was posted on sexta-feira, agosto 8th, 2008 at 17:19 and is filed under Sombras do Passado. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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