De como eu nasci

Os fatos narrados a seguir são reais, e eu só tomei conhecimento deles quando tinha aproximadamente 35 anos. Eles me foram narrados por minha mãe, a quem eu buscara intensamente durante quase três anos porque o HIV me convencera que para tudo há, realmente, tempo e hora, e era chegada a hora de perdoar minha mãe e lhe levar meu amor de filho, embora titubeante este amor…

Quando a encontrei ela me recebeu com um “oi”, como se eu tivesse acabado de acordar e ela nunca tivesse me abandonado.

Confesso que os ânimos arrefeceram, mas eu estava determinado e Deus vos livre de me verem determinado a alguma coisa…

Estava doente.

Câncer.

No seio.

Do tamanho de uma laranja quando extirpado.

Era preciso químio e rádio, ela considerou que o Senhor curaria.

Concordo que o Senhor cura, mas anexo a isso o fato dele não dispensar o concurso dos médicos, pois não foi com outro fim que Ele instituiu a medicina.

Argüi sobre isso, mas era inútil.

Resolvi não contar a ela a minha sorologia, ela já carregava um fardo de culpas muito pesado para eu lhe colocar mais uma.

Então ela me contou estas coisas que passarei a narra do meu modo, da minha maneira, rascante e cruel…

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O homem no altar não se movia, ruía por dentro com os olhos na entrada da igreja e nada da noiva. Ele não olhava para ninguém e a maledicência se fazia presente na casa de deus, como de costume.

Passada uma hora, convenceram-no, por bem, a não mais esperar, ela não viria…

O homem em questão, graças a esta que não foi ao altar, viria a se tornar meu pai, para meu infortúnio. Mas muita água rolou sob a ponte antes que eu chegasse a este mundo pela porta do Hospital Nove de Julho.

Voltemos um pouco mais no tempo.

Terei de ser cruel com pessoas a quem eu amo e que já deixaram este mundo, mas o que coloco aqui é o legado que eles me deixaram, e a cada um é dado segundo as suas obras.

A meu tempo receberei a paga por estes escritos…

Helena caìra na orfandade ainda menina.

A mãe padeceu na loucura e o pai num acidente de caminhão de causas desconhecidas e misteriosas.

Mas minha mãe caíra também nas boas graças de Dona Palmira e seu marido, cujo nome eu nunca soube. Este casal perdeu um filho, em situações que não me permitirei publicar.

A dor da perda era grande e eles já tinham a idade um pouco avançada para pensar numa nova gestação. Este homem, que seria meu avô adotivo era um militar de alta patente, reformado, e não teve dificuldades em adotar Helena.

Helena tornou-se a alegria da casa e especialmente do pai adotivo, que a cobria de mimos e fazia da vida dela uma coisa, digamos, feliz.

Mas ele não viveu muito tempo.

Um infarto o arrebatou para o outro mundo e Helena passou a uma condição diferente.

Minha avó, Palmira, por quem eu tanto chorei em sua morte, tinha um caso extra-conjugal.

Eu conheci o homem na minha meninice, chamava-o “tio Eduardo”.

Com a viuvez não demorou para que o caso viesse a público e se tornasse um romance assumido, guardadas as devidas proporções, tendo em vista que minha avó passara a ser pensionista do exército e a pensão era gorda, morbidamente obesa…

Tio Eduardo antipatizava Helena e fazia pressão para que Palmira a devolvesse ao orfanato (talvez tivesse sido melhor), mas ela recusava-se.

Então ele ordenou:

“-Que se arranje um casamento”.

Estava aberta a temporada de caça ao noivo.

Sebastião tornou-se sério candidato, por razões que nem Helena sabe contar, mas, sempre segundo ela, havia algo que obstruía a “negociação”.

Eu presumo que fosse o “dote”. Mas isso aqui não é lugar de presunções, esqueçam que escrevi isso.

Lá do outro lado, Dona Maria do Rosário e Dona Geni, mãe e Irma de Sebastião, fustigavam-no para que se casasse, a menina, ele tinha 32 anos e Helena 16, “era um bom partido”, posto que herdasse, segundo a concepção delas, por natural condição, a pensão do militar já falecido…

Helena não soube explicar, afinal, como se deu o acerto, mas eu sei que o casal viveu sete anos em casa de Dona Palmira e Tia Irene, personagem aparentemente apagado que teria, no futuro do pretérito, importante papel no meu destino…

O que sei é que se casaram na Igreja de Sant’Anna, com toda a pompa que meu hipotético avô pode garantir com valorosos anos de trabalho nas frentes militares do Brasil.

Casaram-se, nupciaram-se, consumaram o casamento e, misteriosamente, Helena engravidou.

Mas a criança não vingou. Creio que era eu mesmo, que dei um jeito de puxar o freio de emergência, preocupado com o que viria.

Mas Palmira, a esta altura da vida já casta e cã, fez uma promessa a Nossa Senhora:

Se Helena engravidasse, a criança nascesse e vingasse ela a daria em batismo na Igreja em Aparecida do Norte.

Nossa Senhora gosta de ter afilhados e olhou para mim e disse:

Para tudo a um tempo e hora determinados. É chegado o teu de nascer…

Menos de um ano depois eu viria à luz, num parto difícil, pois eu estava com o cordão umbilical em torno do pescoço e minha mãe tinha apenas 18 anos…

O médico foi mais hábil que eu e nasci em dois de março de 1964, as 15:45, em meio a revolução…

Assim se inicia uma história, que se eu tiver forças, será transcrita num livro.

Se eu não tiver, tereis sabido como nasci.

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This entry was posted on domingo, agosto 3rd, 2008 at 15:38 and is filed under Minha Primeira Família. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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