Reminiscências

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O que pode se dizer de um dia que começa às sete e meia da manhã e insiste em durar até as 3:15 da madrugada?

Pode – se dizer que não é dia de boa família.

Um dia de boa família começa às cinco da manha e acaba as dez da noite.

Parece-me que os dias de boa família têm me abandonado; creio que não me farão falta, visto que não sou mesmo de boa família.

Ah!!! Bons tempos estes em que havia “boas famílias”.

A boa família levantava cedo, com o cantar do galo e dormia muito cedo, logo depois das galinhas.

Lembro – me que, quando criança (alerto a todos que fui criança), estive em um destes sítios de onde não se deve arredar o pé jamais.

Faz muito tempo, e as reminiscências destes dias se apresentam difusas, meio que acinzentadas (um dia hei de explicar a todos este meu mecanismo de memória que não lembra o que comi ontem mas guarda filmes coloridos do que se passou anos atrás e que vai perdendo as cores, conforme o tempo os afasta, como numa aquarela…)

Lembro-me de um cata-ventos que girava sem parar, pois ventava sem parar, que servia para bombear a água de um poço.

Era muito alto este cata-vento e foi preciso uma equipe para me resgatar lá do alto.

Sempre atrás da já referida cidade (aquela, de algodão doce, nas nuvens)…

Houve muita imprecação, muito riso, muitos cascudos, pois tal aventura poderia não ter acabado muito bem.

Lembro-me vagamente de um queijo imenso, que devorei com a simpatia de todos, pois era um menino e meninos devem comer queijos à revelia.

Havia também alguns cachorros.

Todos imensos, maiores que eu, ótimos para cavalgar; alguém tentou me introduzir um potro como meio de locomoção.

O potro não gostou de mim e eu, dele, muito menos. Os cachorros, não sei porque, talvez por reconhecerem em mim um “filhote” tinham desvelada paciência em me suportar os 12 quilos, talvez mais.

Mas eram hábeis estes danados.

Ao fim da tarde, uma senhora que não me vem o nome à memória, chamava – os e dava uma ordem.

Era iniciada uma verdadeira caçada.

Eles agiam em grupo, para espanto de todos e minha completa indiferença de menino, separavam um frango cuidadosamente, cercavam – no, apanhavam o infeliz e, pouco depois, ele estava na panela…

Mas houve, em tudo isso, algo muito interessante.

Este que vos fala, não tendo nada a fazer senão “meninear pela ai” decidiu – se a perseguir pintinhos, todos minúsculos e piantes, rápidos, inalcançáveis… Lembro me bem disso, agora, e posso me ver, como se eu mesmo estivesse atrás de mim, filmando aquela cena em que um menino, eu mesmo, ziguezagueava de um lado para o outro atrás de pintinhos.

Havia um chiqueiro por ali, pois me lmebro de porcos, e havia cavalos também, pois me fora apresentado um potro; acima e tudo isso, havia uma galinha, Mãe de Todos os Pintinhos que, indignada com minha perseguição a Seus Filhos, partiu em meu encalço, asas abertas, buscando equilíbrio, e cacarejando como louca:

“Có có có có có có có”.

Inútil dizer que no mesmo ritmo que perseguia fugi, esbaforido, buscando abrigo em minha mãe.

Houve um confronto.

Eram duas mães, muito diferentes, é claro, ambas interessadas na proteção de seus rebentos.

Creio que houve um acordo mudo entre ambas:

Mantenha seu filho longe dos meus e eu não bico o seu.

Foi um acordo justo e a única parte que não foi cumprida foi a minha.

Três e meia da manhã.

Daqui a pouco alguns galos começarão a cantar, impondo seus desígnios a multidão que vive em volta deles.

As boas famílias estarão acordando em seguida, ordenhando vacas, fazendo manteiga, assando pão…

É tempo, preciso dormir, ou vou escandalizar as boas famílias…

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This entry was posted on sexta-feira, agosto 1st, 2008 at 20:47 and is filed under Minha Primeira Família. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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