Simone

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Simone

Simone tem como causa primária um romance que deu com os burros n’água com uma moça chamada Flávia.

Ainda não tenho como escrever sobre Flávia, embora já tenha tentado no passado.

Por conta de Flávia, por eu não contaria tudo? Por conta de Flávia, enceguecido de dor eu cheguei a procurar suporte emocional em casas de umbanda, no afã de “trazê-la de volta para mim”.

Pediam me muita coisa para isso e algo em mim dizia-me que tal empreitada poderia não acabar bem, mexer com forças que eu não conheço poderia ter conseqüências terríveis e imprevisíveis; mas insistia em ir às casas, até porque, em algumas, o ritual é muito bonito.

Numa delas eu passei mal, não sei o que me deu, e quando dei por mim estava sentado ao lado dela, Simone, que me perguntava, solícita:

“Moço, quer um copo com água?”

De pronto eu aceitei, minha garganta parecia tomada pelas areias do Saara…

Não demorou a que a água chegasse, e com ela a acuidade visual.

Notei que a jovem que me dera um copo com água era excepcionalmente bonita, com olhos castanhos, grandes (tenho fixação por isso), que o tronco subia e alteava-se em cálice e iniciei uma conversa tola, na qual contava que eu vinha de uma desilusão amorosa, coincidentemente ela também, só que menos recente. Marcamos o retorno para o centro da cidade juntos e silenciamos, em respeito aos trabalhos que ali se executavam .

Fomos ao ponto de ônibus e ela desceu no Brás. Para alongar a conversa, eu já tinha o telefone dela, me propus, como solerte cavaleiro que sou, a acompanhá-la até a porta de sua casa, se isso não fosse inconveniente.

Ela aceitou e agradeceu.

Como uma dama, não chegou e simplesmente entrou.

Sentamo-nos à soleira de sua porta e começamos a conversar sobre coisas, ela ficou encantada por estar conversando com DJ (bela roba) e de alguma forma muito misteriosa eu me via esquecendo-me de Flávia a cada frase que eu iniciava e Simone completava ou, a outro turno, frases que Simone iniciava e eu completava.

Lembro-me que quando ela disse que precisva entrar eu lhe disse:

Tudo bem bruxinha, pode entrar, estou feliz por tê-la conhecido!

Bruxinha?!

Sim, bruxinha é um elogio!

Como assim?!

Na idade média, a ligação entre os homens e deus havia se perdido.

Quando alguém adoecia procurava as bruxas. Elas, as bruxas, conheciam as ervas, as cascas das árvores, a bruxas eram o único elo entre os homens e deus…

Ela me interrompeu.

“Não diga mais nada, eu já entendi tudo.”

E me deu um beijo no rosto.

Subi do Brás até a Vila Buarque, onde morava, com a promessa de nunca mais lavar o rosto por conta daquele beijo, que ainda hoje me parece aveludado.

Estava esquecendo Flávia, agora tão rapidamente que nem mesmo eu conseguia entender.

Anos mais tarde eu entendi.

Anos mais tarde eu vislumbrei os porquês de tê-la esquecido assim, “tão fácil”.

Sobre isso falarei em tempo oportuno, pois estas memórias não têm o compromisso de serem cronologicamente fiéis; fieis aos fatos sim, mas à cronologia dos fatos não, isso exigiria muito método e eu não sou homem de escrever com métodos.

Muito convenientemente Simone me deu o telefone do emprego, o que me levou a cozinhar a mim mesmo por todo o final de semana antes de poder ligar-lhe.

E se era para jogar, eu a cozinhei por toda a segunda e terça feira para ligar para ela.

Só liguei na quarta.

Pensei que você não ia ligar, disse ela.

Pensei eu: Um a Um.

Começamos a conversar e maçamos de nos encontrarmos em frente a um prédio no centro de São Paulo que é ponto de encontro de diversos espécimes da fauna paulistana, com os mais variados motivos.

Ela chegou pontualmente.

E pontualmente paramos para tomar um café.

E pontualmente eu a levei para casa e, ainda pontualmente, ela me deu o telefone de casa, com o adendo de que eu poderia ligar quando quisesse…

Liguei quando quis, e quis no dia seguinte.

Depois disso não paramos de falar ao telefone e eu não cansei de pegá-la próximo ao serviço e levá-la para casa antes de ir para o trabalho (Irmã Sol, irmão Lua).

E cedo ou tarde nos aprofundamos, criamos um relacionamento que já não se baseava apenas em palavras e passeios.

Eu poderia contar muitas coisas, mas sou um cavalheiro e não vou narrar fatos que ocorreram a menos de 20 anos, pois só depois de vinte anos eu posso considerar que os fatos se “perderam na esteira do tempo”.

Mas, estava feliz e, mesmo sem saber direito o que era amor, eu julgava que a amava.

E julgava que ela estava começando a me amar(…).

Um dia eu descobri que não.

Foi numa sexta feira, quando liguei para ela numa brecha do trabalho, coisa que eu fazia todos os dias, e o telefone deu ocupado. E deu ocupado até as duas da manha.

Eu pressenti algo, senti medo, mas… mas já estava melhor escolado, a perda da Flávia me ensinara muitas coisas e eu não pretendia cair nos mesmos erros.

É certo que ainda caí em alguns, mas foram poucos e perdoáveis.

Ela terminou comigo por telefone, foi curta, foi grossa e me magoou de forma terrível.

O que ela não conseguiu ver foi que, embora ela fosse livre para escolher com quem se relacionar, eu não tinha culpa por ter me apaixonado por ela e que isso, de alguma sorte, talvez fosse um elogio…

O fato é que acabou e as lágrimas que eu derramei, derramei sozinho, em meu quarto de hotel.

Ninguém me viu chorar.

Ninguém me viu procurar por ela de novo, pois não a procurei.

Mas todos viram eu murchar e fenecer, não tardou muito e eu adoeci, eram os primeiros sinais da infecção por HIV.

Uma meningite que durante um mês foi tratada como gripe e que me custou meses em coma…

Quando veio o resultado a primeira coisa em que pensei foi a seguinte:

Meu deus! Eu matei a Simone…

Talvez algum dia eu escreva sobre o calvário que subi até entregar a ela a notícia e ter o resultado negativo. Sim, ela não se contaminou.

Mas isso… Isso já é outra história…

Voce me acha muito amargo?

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This entry was posted on segunda-feira, agosto 18th, 2008 at 10:18 and is filed under Os amores. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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