Não reescreveria…

Estava zaranzando pela rede, checando links para http://www.soropositivo.org, a menina de meus olhos, quando me deparei com este texto, de dez anos atrás, que originalmente entitulei datas.

E embora eu o republique, e republico porque, quer eu queira, quer não, faz parte da minha história e deve ficar registrado aqui, eu não o reescreveria nem o criaria, na data de hoje.

As coisas mudam, os anos, que nada são senão um amontoado de minutos empacotados e organizados de forma que possamos catalogar lembranças, nos dão um novo enfoque sobre o que foi, o que era e o que é, de tal maneira que muita coisa dita, muita tolice feita teria sido evitada se pudéssemos pensar com “a vantagem dos anos”.

Pode ser que daqui a dez anos eu venha aqui e me desdiga, de tal forma que pareça uma alma vã e inconstante…

Mas é porque as coisas mudam, a vida é moldura de coisas em mutação e movimento constantes.

É um momento, que dista pelo menos dez anos em minha vida, mas faz parde da minha história.

Bebei. Bebei dela e de mim sabereis mais um pouco; mas sabei, sabei com certeza, que ao final de tudo, nada saberíeis se eu não vos tivesse contado

Eu sou do tipo que comemora datas.

Não importam quais sejam, desde que marquem alguma coisa em minha vida, eu
as comemoro.

Mesmo as mais tristes.

Ou as mais sórdidas, eu as comemoro.

Para isso basta-me olhar no calendário
e me lembrar.

Quando eu esqueço de comemorar uma data, é que o fato em si perdeu a importância.

É mais ou menos como aquele número de telefone que você nunca mais vai usar
e, mesmo assim, insiste em puxá-lo de memória, para se certificar de que ele
permanece lá, arquivado, pronto a ser usado.

Até que um dia… Um dia você
o esquece.

Isso é libertação.

Quando você esquece uma data, um nome, um rosto ou um número
de telefone, está livre daquele fantasma que arrastava correntes dentro do
seu castelo.

Mas esses fantasmas têm amor à casa alheia e muitas vezes custam
a sair; mesmo quando a razão, senhora da casa, os insta a se retirarem, eles
se apegam aos mais pueris argumentos… E vão ficando.

E hoje é uma data importante.

Há tempos, que não vou especificar, entrei num avião com o fito único de conhecer
uma pessoa.

E que pessoa!

Quando a vi, com seus quarenta e dois anos, rosto iluminado por
um sorriso, a me chamar de “meu anjo”, eu pensei:

“É ela. Finalmente eu a encontrei.
Gastei duas décadas sofrendo e espalhando sofrimento, mas te achei…”

E com essa sensação embarquei num táxi rumo à casa dela, numa cidade qualquer
deste imenso e belo país chamado Brasil.

Tínhamos tanto a dizer um para o outro e o tempo era tão curto. Eu só tinha
três dias. E tinha séculos para contar… (Curiosamente, agora, entra, no meu
winamp uma música de Rita Moss: “Just a Dream Ago”)

No primeiro dia, na primeira tarde, seguramo-nos como podíamos.

Conversamos,
ela me mostrou sua coleção de Cd’s, seus álbuns de fotos, falou-me de sua vida
e, quando caiu a noite, saímos para jantar.

Jantamos próximos a uma praia, a Lua Cheia (esta impostora) prateando o mar
e nós falando sobre tudo e qualquer coisa, rindo, felizes um do outro.

Eu me
sentia rico, milionário. Nem Onassis, em toda a sua opulência, pôde sentir
a riqueza que eu senti…

Quando voltamos para casa, não havia mais recurso. As barreiras foram se esfacelando
(As Time Goes By) uma a uma e, num dado momento, mesmo me sentindo um adolescente,
eu lhe pedi um beijo.

Ela me disse: “Claro”.

E não se viu mais nada.

A noite passou, entramos pelo dia, não atendemos telefone, não respondemos
e-mail, não nada.

Éramos um do outro (I Loved You, Freddie Cole) e não havia Planeta.

Estávamos numa dimensão só nossa e nos amamos como loucos, como dois animais…

Assim passamos o tempo que nos restou, não quero me alongar nisso.

Adiamos meu retorno até o ultimo avião possível e a última cena que guardo
dela é sua imagem no aeroporto, me olhando e acenando adeus.

E era adeus mesmo.

Dias depois começamos a conversar e nos decidimos por viver juntos. Eu iria
para a cidade dela e começaríamos vida nova. Seríamos felizes.

Mas uma sombra se interpôs entre nós (La Vie En Rose, Louis Armstrong, com
direito a solo de pistão): o preconceito.

De família rigorosa e influente, foi cercada por todos os lados, e eu também,
e fomos impedidos de nos unirmos.

O aviso de “não venha” se deu três horas antes do embarque, eu de malas prontas,
com um sorriso nos lábios quando o celular tocou e me deu a ordem inapelável: “Não
venha, depois eu explico”.

Entrei em parafuso.

Não venha?!

O que teria acontecido?

Fiquei perdido, atônito, perplexo e se
pude fazer alguma coisa, foi sentar e chorar.

Depois tudo me foi explicado e eu ainda muito lutei pelo que não poderia ser…

Horas e horas de telefone, mereceríamos uma estátua de honra ao mérito por
parte da Embratel.

Mas não foi possível.

O meu sonho de ser feliz ao lado daquela a quem eu tanto procurei desvaneceu-se
nas sombras da exclusão social, da ignorância e da crueldade.

Muito eu sofri depois disso, de tal forma que sou, hoje, paciente psiquiátrico,
com transtorno afetivo bipolar e vivo sob o peso de muitas drogas.

Mas não deixo de comemorar a data (Life is a Cabaret, Liza Minelli).

É certo que os acontecimentos iniciados em algum ano no passado, nesta data,
trouxeram-me a uma situação de calamidade moral e emocional.

Mas também é certo
que eu finalmente a encontrei.

E se não posso tê-la, posso amá-la.

E se posso amá-la, já sou feliz.

Aqui entrou Glenn Miller:

Moonlight Serenade.

This entry was posted on sábado, outubro 4th, 2008 at 17:25 and is filed under Sombras do Passado. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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