No mundo da Lua
No mundo da Lua.
Acordei neste cinco de outubro de 08 com a velha sensação de um daqueles dias…
Deve ser porque hoje é dia de eleição e sou obrigado a votar numa legenda, numa crença, para tentar não permitir que criaturas com idéias espúrias galguem o poder, ou mantenham-se no poder, como queiram, por quatro anos.
O rito que se iniciou há pouco mais de dois meses teve continuidade.
Uma das primeiras “tarefas do dia” foi aplicar uma injeção em minha esposa.
Alguém me disse que “cuidar de quem você ama abre um leque imenso de possibilidades entre uma prece e uma agulha” e é bem verdade…
Numa escala de zero ao infinito meu estado hoje se revelaria no numero um.
Eu explico.
Tenho me sentido tão mal que quando acordei hoje, sentindo-me bem, estranhei.
É muito bom sentir-se bem, mesmo que isso seja de vem em quando.
Depois que iniciei com os remédios contra o vírus, isso faz um mês, mas parece uma eternidade, eu não tenho me sentido bem.
Adaptação, esta é a palavra. Preciso me adaptar ao(s) remédio(s), se quiser viver.
E quero viver, mesmo que isso represente viver mal.
Mas nada disso interessa e é pura embromação pois, na verdade, queria falar de outras coisas e vou tentar aqui.
Há alguns anos fui diagnosticado como DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) e desde então tenho caçado a mim mesmo para tentar descobrir quem eu sou e qual a essência de minhas ações, gestos, palavras ao logo de quase cinco décadas…
A pessoa com comportamento DDA (o caso é que não se porta DDA, se é DDA) tende a ser distraída de muitas coisas mas extremamente capaz em alguns setores, especialmente aqueles que mais lhe interessam, podendo gerar hiperfoco (“”) em determinados momentos.
O hiperfoco é um estado de extrema concentração, onde mais nada interessa a não ser o objeto do hiperfoco.
Eu já disse à minha esposa, à minha psiquiatra e à minha analista que em alguns momentos eu tenho a impressão de ter “vivido em transe” a maior parte de minha vida e ontem eu “descobri” o que pode vir a ter sido este transe:
Vivi em hiperfoco a minha infância e o mote do foco era escapar das pancadas de meu pai. Quando isso, as pancadas, se tornaram perigosas demais e insuportáveis eu fugi de cãs e fui rapidamente movido para outro estado de hiperfoco: “Sobreviver às ruas”.
E quando fui resgatado à minha posição de dignidade mínima, dentro de uma bate aos dezoito anos eu descobri as mulheres.
E entrei num estado de hiperfoco que deveria ser interessante de ser estudado, pois a minha impressão é que foi, na verdade, um PUTA HIPERFOCO, que durou doze anos e só acabou quando eu bati com a parede e me descobri portador de HIV.
Naturalmente entrei num novo estágio de hiperfoco, muito parecido com o segundo:
“Sobreviver ao HIV”.
Este hiperfoco foi pródigo, posto que sobrevivo relativamente bem ao HIV e criei coisas impressionantes, que me assustam quando eu descubro que fiz, pois não tinha a menor intenção de fazê-lo.
O site http://www.soropositivo.org não foi criado com nenhuma grande ambição.
Recebendo de 3.000 a 4.000 visitas por mês alcançou, em 8 anos, um numero de visitas superior a 1.500.000 visitas.
Mas ai entra Alexis um SEO e alavancou, com meia dúzia de orientações técnicas, as visitas para 40.000 visitas mensais.
No Alexa, um indexador que visa mediar em especial a visitação dos cem mil sites mais visitados do planeta eu apareço, hoje, entre os 900.000 mais vistos do planeta, num índice que tem mais de 20 milhões de sites…
Tudo isso por conta das orientações Alexis, que me diz que isso só é possível graças a qualidade do site.
É um hiperfoco secundário, gerar visitas para o site e mostrar a mim mesmo do que sou capaz.
Enfim, mesmo dentro do conceito de normalidade que pode ser aplicado a um DDA eu ainda sou um louco varrido.
Capaz de muitas realizações, sim, é verdade, mas quase que tecnicamente incapaz de gerir a própria via, sempre em guerra com as finanças literalmente desequilibradas (pouca receita e fluxo de saída vigoroso é uma das pontas do Iceberg), parece que eu “vivo mesmo no mundo da Lua”…
Mas, sou eu, enfim, quem vive esta vida, malgrado meus tropeços, e a vivo tão bem quanto é possível.
Foda-se o resto deveria eu dizer, mas, não, tenho me esforçado aqui e ali e estou melhorando.
Claro que tem Ritalina na parada, tem psiquiatra, tem analista, tem a paciência viscosa e perigosa de minha esposa, mas quem sobe cada degrau sou eu!
E só eu sei o quanto me custa subir cada um.
Mas eu vou subindo e, curiosamente, quanto mais eu subo, mais distante eu fico do mundo da Lua.
Eu sou uma contradição explícita.
