Paradoxo – Outro que não reescreveria

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Paradoxo

Se há uma coisa que atormenta um depressivo, esta coisa é uma noite sem estrelas.

Hoje estou atormentado.

E ao constatar isso vejo o quanto mudei com o passar dos anos… Antes, na minha “juventude”, quando eu era um DJ na noite, minhas baladas duravam três, quatro noites… E estas três quatro noites eram de farras, diversão e alegria. Não havia em mim esta introspecção, este clima de “algo à espreita”, me ameaçando com não sei que. Hoje, isso é uma constante.

E é com uma saudade imensa que eu olho para o passado e vejo as ruas por onde andei, as camas que compartilhei, os desatinos que cometi, as loucuras impublicáveis que perpetrei, as mulheres que amei…

Daise… Débora… Gabi… Sonia… Simone… Potira (índia mesmo, lá do Xingu), Wan (a chinesa maluca que colocou a máfia chinesa atrás de mim)…Aldeíde… e outras tantas que nem me lembro o nome ou, uma pena, o rosto… E para cada nome seguido por reticências eu poderia contar uma história e mostrar o quanto eu fui amado e o quanto amei; e poderia mostrar também quantas vezes fui canalha e quantas canalhices foram feitas comigo…

E, pensando nisso, chego quase a acreditar que estou quite com a vida. Dei e recebi. Do que dei, recebi. Do que recebi, dei. E dei vida, prazer, tesão, lágrimas, noites mal-dormidas, tentativas de suicídios minhas, outras por mim… Brigas. Tiros. Armas apontadas para mim e muita conversa para que elas não fossem usadas… Grandes amigos, inimigos ferozes. Gente que até hoje comemora o fato de eu ter contraído HIV (todos os anos mando notícias, dizendo a eles e elas que continuo vivo e bem de saúde – sou um debochado)…

Houve quem dissesse (Flávia): “Bem feito! Tem que se fuder!” E o meu maior erro foi tê-la amado demais sem saber o que era amor…

Quando esta fase louca passou eu já vinha beirando os trinta e se não tinha mais o viço da mocidade, tinha a lábia de quem sempre andou nos labirintos da sedução…

Mudei meu estilo. Passei a caçar com mais sutileza. Escolhia melhor minhas presas. E só dava botes certeiros. Naturalmente eu falhava. E a cada falha eu aprendia alguma coisa; mesmo que fosse: “nunca mais cante esta mulher”. Já era um aprendizado.

Logo depois veio a meningite, o coma, e o diagnóstico. A minha vida mudou.

Por meses tive nojo de mim mesmo. Por meses vivi o drama moral de acreditar que ninguém mais me tocaria, pois era implícito para mim que antes de uma transa eu contasse a sorologia. Fiquei oito meses sem um abraço, na mais profunda solidão afetiva, lutando para sobreviver a mim mesmo, ao vírus e às adversidades do percurso, que nem importa narrar aqui, pois não quero (nunca quis) ser vítima ou herói, apenas gente. Foi quando reencontrei Débora, que eu não via há quase dez anos. Abatida, a vida havia sido dura com ela.

Seu rosto, belíssimo outrora, carregava as marcas de seu calvário particular.

Conversamos. Contamos um ao outro os desastres de nossas vidas e lamentamos o dia em que rompemos.

Entramos, então, no labirinto das hipóteses.

“Se tivéssemos ficado juntos você não teria HIV…”;

“Se não tivéssemos nos separados você não teria ficado viúva, com dois filhos, assim tão jovem…”

E resolvemos brindar à nossa felicidade hipotética.

“Você pode beber?”Ela perguntou. Eu disse: “Que importa?”.

Bebamos então.

E aí eu ofereci a ela minhas lágrimas enquanto ela me dava seu colo e me ouvia, ouvia a voz de um náufrago que clama por socorro…

Ela me disse para não chorar. Que eu não era tão indigno assim. Que a vida tem suas razoes e o que nos cabe é viver.

“Vem comigo…”

E ela se entregou a mim como nunca fizera antes, devolvendo-me a força que eu precisava para prosseguir.

Disse que não tinha medo de mim, nem da AIDS, nem do que fosse.

Tudo o que ela queria era me mostrar que eu era digno de amor.

E me amando me dignificou, me reerguendo ao patamar mínimo de dignidade humana que é o que eu espero da vida.

Ela me deu seu telefone. Eu não dei nada, pois nada tinha, e nunca mais liguei. Sentia que o gesto dela fora mais por bondade que por amor, e que não era justo impeli-la a outros movimentos.

Depois deste dia, reencontrei em mim a capacidade de ser amado, de me aceitar como eu sou e ir à luta sem pedir licença a ninguém.

De lá para cá, houve alguma aventura, alguma namoro, algum romance.

Mas houve alguém muito especial (e eu fico com a música: …e para ninguém saber seu nome/eu digo só/meu bem), que me ensinou sobre a vida mais que eu poderia ter aprendido em muitas vidas; me deu luz quando eu estava nas trevas da minha completa ignorância, me re-ensinou o conceito de justiça, aconselhando-me a buscar, antes, a justeza das coisas, me deu força quando todos me abandonavam e, um dia, me acenou com a felicidade completa, dizendo, “venha viver comigo”. Barreiras sociais se interpuseram entre nós. O mundo tem suas idiossincrasias, e elas precisam ser respeitadas.

A bem da verdade, o mundo é um jogo de espelhos onde só vemos aquilo que nos permitem ver…

E se existe um abismo difícil de ser transposto, este é o da diferença social associada à vida pregressa e a condição de saúde…

Por eu ser quem eu sou, por ter vivido tudo o que vivi, por ter trilhado todos os caminhos que trilhei acabei por encontrar aquela a quem eu daria meu nome (grande quimera) e minha vida sem pestanejar; e por estas mesmas razoes, a vida a levou para longe de mim, para que eu nunca mais possa vê-la…

É um paradoxo, bem sei.

Mas, se é um paradoxo, também faz parte de minha vida que, em suma, é outro paradoxo.

Foi de paradoxo em paradoxo que eu cheguei ao maior de todos os paradoxos, este que determinou o fim de uma carreira de caçador.

Sigo pela vida, à maneira que o Lulu Santos descreveu muito bem: “Te amando calado, como quem ouve uma sinfonia de silencio e de luz…”

Mas, acima de tudo, por piegas que seja, confesso que vivi.

Voce me acha muito amargo?

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This entry was posted on segunda-feira, outubro 13th, 2008 at 07:40 and is filed under Os reencontros. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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