Pequena carta para Patrícia
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Dizem que na vida tudo é uma questão de escolhas.
Eu estava aqui em casa, em frente ao micro, em paz relativa quando resolvi escutar musica.
Ai entrou Speccially For You e eu fui remetido incondicionalmente ao início da década de 90.
Tinha literalmente abandonado o emprego no Vagão Plaza e ido trabalhar em uma discoteca que não vou situar no espaço para preservar identidades…
Eu preservo identidades mesmo que elas sejam extremamente remotas…
Fui trabalhar nesta discoteca atendendo a um convite; mas, antes de aceitar o convite tive de olhar a casa onde iria trabalhar e fui lá anonimamente.
Entrei com a casa vazia e fui ao bar, onde encontrei a Bar – tender Patrícia, uma graça de menina!
Joguei conversa fora e ela disse que eu era “cara nova ali”, frase à qual eu respondi que talvez ela se cansasse de ver. Perspicaz ela me perguntou se eu iria trabalhar lá e eu sorri. Deixei o bar com um Martini na mão e fui apreciar o movimento.
A casa era BA mas estava mal sonorizada, precisava de reformas no áudio e de isolamento acústico numa parece que devolvia o som um atraso que faria de minha cabeça um inferno. E o DJ era péssimo.
Fácil entender porque fui convidado e porque a casa não ia além de 900 pagantes (cumpre dizer que para manter meu anonimato eu paguei ingresso).
Quando entrou a seleção de musicas românticas eu me senti um alien, pois não conhecia ninguém e não ia me arriscar a tirar uma completa estranha para dançar.
Mas Patrícia não era uma completa estranha e eu fui lá arrancá-la do bar para dançar.
E ela ACEITOU!
Dançamos.
Conversamos.
E como eram outros os tempos e os hormônios falavam muito alto, beijamo-nos.
Começava ali um confuso e tórrido affair, com lances dramáticos de parte a parte, com traições veladas e públicas (chumbo trocado não dói), rompimentos, reconciliações, cenas, palavrões e tudo aquilo que envolve uma paixão entre dois malucos…
Lembro-me de uam noite, fim de noite, em que eu deixei o iluminador terminando as coisas e fui para o salão e me sentei à margem da pista de dança.
Num repente eu a vi, com outro cara, e me enciumei, fiquei bravo como um siri dentro de uma lata.
Contive-me e a chamei.
Ela veio.
Sim? Perguntou.
“Posso te levar para casa hoje?”
Eu estou acompanhada, você já viu. Mas sempre direi sim para você…
Na época empavonei-me todo.
Era o Macho-Real, à qual sucumbiam todas as fêmeas (cérebro de lagosta é uma merda), o desejado, o querido e amado.
Claro que não a levei para casa.
Mas não é isso que importa.
O que importa é que hoje eu atento para a frase e percebo uma declaração de desvelado amor que este insensível aqui simplesmente não percebeu por mera imaturidade, criancice mesmo.
Ainda trabalhei lá um tempo, mas a minha inconstância era tal que nem mesmo um excelente salário permitiu que eu ficasse por lá.
Abandonei a discoteca e nunca mais procurei por Patrícia, que me visita o pensamento hoje para meu pesar.
Patrícia, tudo, na vida, é escolha. Mesmo que inconsciente.
E eu escolhi não fazer vida com você, mesmo sem pensar.
Penso que talvez tenha sido esta a melhor solução, pois nós já tínhamos nos agredido demais para não nos ressentirmos disso e, ao fimde tudo, encontrei a mulher de minha vida quase vinte anos depois.
Está claro para mim que eu só a faria sofrer e sofreria, pois era um moleque bobo, tolo, irresponsável, sem as noções mínimas de comportamento e regido pelos hormônios.
Está feito.
Se você encontrar este texto e se reconhecer nele, pense que não é sem uma lástima que eu o escrevo, mas é com a esperança de que você tenha encontrado alguém que tenha sabido fazer você feliz.;
Lembro-me de tuas renúncias, de teus beijos.
E lembro-me também do chumbo trocado.
A verdade é que doía.
Mas era bom.
Foi até divertido.
Com Carinho
Cau
A música é para você,
4dagudfella4dagudtime

