Um telefonema Agendado

Quando Simone me deixou eu fiquei muito mal.

Estava apaixonado por ela. Ela era, em muito tempo, a primeira mulher que eu conquistara e que não era da noite. Era um vinho de outra safra, e de safra muito boa.

Fiquei triste. Aqui neste blog eu já disse que não fiz cenas, não dei shows; perdi Simone com dignidade.

Mas me acabrunhei de tal forma que adoeci. Primeiro era só um desanimo e, derepente, uma dor de cabeça lancinante que nada controlava.

Passei em muitas consultas na Santa Casa de Misericórdia e sai de lá sempre com o mesmo diagnóstico: Gripe.

Um dia eu armei uma cilada.

Estava abrigado na casa de um amigo, Max, e pedi para ele ligar para a Simone, dizendo que eu delirava em febre e ficava chamando o nome dela. Ele acrescentou que mexeu nas minhas coisas e que encontrou o telefone dela e, por isso, ligou, para ver se ela podia aparecer e dar um alento a um doente.

De fato eu estava doente e se não delirava o nome dela, não pensava em outra coisa, queria ver Simone.

Ela veio, Max retirou-se e conversamos. Houve até uma melhora no quadro de saúde enquanto ela esteve por ali.

Disse-me docemente que não tínhamos, não tivéramos, nada sério e que eu não devia sofrer assim. Eu não respondi.

Como é que se pode negar água a um homem que tem sede?

Ela ficou pouco mais de uma hora e eu resolvi acompanhá-la pelo menos ate a porta do prédio.

Ela disse que ia abusar de mim e me pediu que roubasse um vaso de violetas que estava fora do alcance dela… Estiquei-me e peguei-o

Na portaria do prédio quis acompanhá-la até o metro, mas ela não deixou e até se irritou com minha insistência, desisti, voltei para a cama e regredi para o estado anterior…

Semanas mais tarde eu viria a descobrir que a gripe era uma meningite e que eu era portador de HIV.

Pensei: Matei Simone.

E como foi dolorosa esta impressão.

Pior que ter o vírus é ter a consciência marcada pelo fato de ter transmitido ele a alguém, especialmente quando se ama esta pessoa.

Foi um longo caminho até fazer ela saber que eu sou soropositivo e nem fui eu quem contei.

Foi um amigo, Toninho, que percebendo que a coisa tinha de ser feita e que eu não teria condições de fazer, que acabou resolvendo fazer ele mesmo.

Conta ele que se arrependeu um segundo depois de ter contado, dada a reação dela (graças a Deus não fui eu)…

Felizmente ela não se contaminou, trocamos algumas cartas enquanto eu morava na casa de apoio mas ela nunca me visitou…

Eu só a vi mais uma vez, quando estava dentro de um ônibus, guiando uma deficiente visual e impossibilitado de sair correndo atrás dela.

Faz alguns anos que eu não ligo para ela, sempre ligava para desejar feliz aniversario.

Acho que farei isso este ano, uma forma de dizer que,m a despeito de tudo, ainda estou vivo

This entry was posted on domingo, março 22nd, 2009 at 10:05 and is filed under Os amores. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Responses to “Um telefonema Agendado”

  1. joyce Says:

    Muito corajosa sua reflexão. parabéns e fique firme. Gostei muito do seu blog.

  2. Cau Says:

    Pior, JOyce, é que eu liguei.
    Ela se casou e tem um filho ou filha, nem sei mais o que ouvi
    Depois de treze anos ainda balacei com o cassamento…

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