Cicera ou Cissa

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Cicera, ou Cissa

Estou começando a escrever sobre algo importante que aconteceu na minha vida, mas não sei se terei saco de terminar.

Se não terminar, jamais saberão disso e o caso em si continuará quase um segredo.

Se eu terminar, vocês saberão que por muito pouco não teriam sabido o que saberão agora…

O quadro é complexo e me causa espécie ter de expô-lo.

Eu estava trabalhando no Le Masque pela primeira vez, esta primeira vez durou um ano e vivia um casamento que vinha caindo pelas tabelas e que eu só insistia em manter por causa de minhas duas filhas.

Teresa, na época “minha esposa”, já tinha me mostrado com todas as letras que ela não era a mulher certa para mim, como não seria a mulher certa para ninguém.

Felizmente eu trabalhava à noite e dormia de dia e a convivência era mínima. Fatos posteriores, que me absterei de colocar aqui ou em qualquer outra página mostrariam que ela era, além de tudo, perigosa.

O que sei é que me sentia livre para sair com quem quisesse, mas Teresa não pensava assim e a cada “traição” que ela descobria, rolava um barraco…

Então fiquei meio comedido, com base no terror, com relação às minhas saídas.

E tinha

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Cada vez que vocês encontrarem uma linha destas significa que por um dia eu pensei em parar de escrever este texto.

E tinha a questão das minhas filhas, que eu amava demais e sabia que se deixasse Teresa ela moveria céus e terra, como mais tarde moveu, para me tirá-las de mim, como de fato tirou.

Eu era um jovem de 23 anos, que pouco ou nada sabia da vida, de relacionamentos e, sobretudo, de diálogos.

Assim, minhas escapadas se davam sempre em noites de folga arranjadas por mim com a cobertura da Rose, então chefe de bailarinas que atendia ao telefone e replicava sempre que eu não podia atender, pois estava soltando um show.

Se Teresa insistisse em esperar ao telefone Rose retorquia que ali não era a casa da sogra e desligava o telefone.

No fim da noite eu tinha de estar lá para saber dos telefonemas, do que foi dito e do que foi respondido para chegar em casa informado sobre tudo o que aconteceu e não ser pego de surpresa.

Até que surgiu cicera, ou ciça, como queiram, que olhou para mim e se apaixonou; e disse, com todas as letras, que queria que eu fosse “seu homem”. Seu homem vem entre aspas porque, a meu ver, eu estava muito longe de ser um homem…

Mas ciça arremetia contra mim com intensidade e eu temia o compromisso, já estava deveras comprometido, com a vida assaz complicada para me envolver com alguém que, sem ao menos um beijo, me cerceava daquela forma.

Eu pensava:

“Imagine se eu for e ela gostar! Vai ser o diabo!”

Evidentemente Rose não gostava da minha relação com Teresa, isso está claríssimo e ela via em Ciça, agora eu sei, a minha libertação.

E aliaram-se.

Rose começou a marcar ombro a ombro qualquer outra mulher que mostrasse interesse por mim e, de quebra, começou a me mostrar as qualidades de Ciça, que eram muitas.

Fez se o arranjoe, na próxima noite, nos sairíamos.

Mas o maldito do folguista me deu o cano e eu tive de trabalhar e dar o cano na Ciça, que apareceu, La pela meia noite, calça branca, blusa de seda, florida, brincos transparentes, um espetáculo, dizendo:

Viu só? Tudo isso pra você, e você perdeu!

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Eu pedi desculpas, mas de nada eu valeria se faltasse ao trabalho para ficar com ela e que oportunidade não faltaria.

E não faltou mesmo. Na semana seguinte saímos.

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Não tenhoa pretensão de transformar minhas memórias numa coisa pornográfica, mas é preciso que se narrem alguns fatos e, num dado momento, quando ela terminava um oral comigo ela suvia, me escalava e beijava, se encaixava em mim e dizia:

“Fica comigo…?!”

E EU CALAVA

“Fica comigo…?!”

FICA COMIGO?!

E EU CALAVA…

E calei-me.

Disse-me ela, que aquela tinha sido a melhor noite de sua vida.

E eu acredito que tenha sido, ela só tinha vinte anos e muita água ainda ia rolar sobre aquela ponte.

Saímos do hotel de braços dados e nos dirigimos ao Le Masque, para pegar o relatório.

Ela não foi, entrou em sua casa e nunca mais me procurou.

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Era como se ela tivesse me dito:

Você teve sua chance.

E tive mesmo.

Eu não abri o diálogo.

Talvez, apenas talvez, se eu tivesse aberto o dialogo com ela, talvez nós pudéssemos, juntos, termos construído uma situação melhor onde eu ficasse com Ciça e minhas filhas.

Eu nunca saberei.

O que sei é que muitos anos mais tarde encontrei Ciça com os olhos menos brilhantes, batendo uma fileira de cocaína no banheiro das mulheres, ao qual eu tinha livre acesso, e que relevei em nome dos bons tempos.

Saí dali triste e desenxabido.

Sentindo-me culpado pela perda da alma de Ciça e pela perda total e irremediável de minhas filhas, que hoje me crêem morto e ainda assim me odeiam…

Isso é o que dá ser um menino quando na verdade é preciso ser homem.

Hoje, depois de mais de duas décadas, eu olho para tudo isso com uma lástima terrível.

Não que eu não seja feliz. Não é isso. É que muita coisa foi perdida simplesmente porque eu não sabia viver e “é preciso saber viver”.

Ciça, se você me ler algum dia, por favor, me perdoe.

Eu não estava à altura do amor que você me dedicava.

Sinceramente.

Perdão.

Perdi você. Perdi minhas filhas.

Perdi tudo.

Ciça, mesmo que seja por piedade, me perdoe…

Cau (DJ)

Milagrosamente consegui terminar isso! Arre!

This entry was posted on domingo, maio 17th, 2009 at 11:42 and is filed under Os amores. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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