Carta à Mulher Amada
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Minha querida (poderia dizer minha amada, minha querida amada, minha adorada, zil coisas; não acabaria de dizer e não há espaço na web para tudo o que teria a dizer. Fico, portanto, em minha querida e amada).

Ontem, 17 de outubro de 2000, viramos mais uma noite ao telefone.
Não sei quantas já são, mas que importa o tempo?
Pouco, minha amada; e é sobre isso que quero falar-te, assim, publicamente.
Falávamos, ontem, sobre o tempo passado, a beleza perdida, o que se foi… Constatei alguma tristeza; quis dizer algo, mas escravo que sou de tua voz, me perdi em ouvi-la e pouco fui capaz de dizer.
Sou ruim com as palavras. Escrevendo, engano um pouco, ao falar me atrapalho fácil, o que é esperado sempre, minhas trapalhadas, e não consigo dizer coisas que penso e acabo me sentindo vazio e impotente.
Mas me lembro de ter tentado te dizer que a julgo belíssima. E me lembro que você me disse:
“É porque não me conheceu alguns anos atrás…”
Emudeci. Estava diante da hipótese de uma deusa.
Senti tua tristeza e me entristeci contigo, pois é dos que amam alegrar-se ou entristecer-se ao sabor das marés das emoções da pessoa amada.
Evoquei-te mentalmente e lembrei de teu rosto, de tua pele, de teu sorriso, de teus olhos…
Lembrei-me do que vivemos e compartilhamos, juntos, e que nem mesmo a distância de duas mil milhas terrestres pôde destruir…
Lembrei-me de teu sorriso de menina, de teu passo de dama, de teu olhar soberano, da Lua refletida no mar, iluminando teus olhos, teus cabelos que balançavam lânguidos ao vento com cheiro de mar…
Lembrei-me do frescor de tua boca, do calor de teu corpo e me senti outra vez um menino, “filiz”, porque, como homem, sabe que tirou a Sorte Grande na Roda da Fortuna.
É verdade, meu amor, o tempo passa para nós, o tempo passa para todos, e leva, a pouco e pouco, o nosso viço, a nossa força, a nossa vitalidade, o nosso impulso de galgar o céu atrás de nossos sonhos, enquanto banha em prata os nossos cabelos…
O tempo nos vai levando tudo, aos pouquinhos, mas, acredite neste tolo, deixa sempre algo em troca.
Deixa-nos a sabedoria, o conhecimento, a experiência, o discernimento; burila-nos a moral, nos eleva e nos transforma, a cada dia, numa pessoa diferente e melhor, mais firme, mais sábia, menos temerosa…
Mas o tempo não nos rouba o brilho do nosso olhar.
O tempo deixa-nos com este brilho até o último segundo, pois é este brilho que dá, de nós, aos outros, notícias do que somos, de quem somos, dá notícias de nossa essência…
Eu quisera ser poeta e te escreveria uma ode.
Mas sou um pretenso cronista, atrapalhado com a vida e só posso contar ao mundo o que vejo e conto ao mundo que és, ainda que não creias, muito bela.
E, de tão bela que és, plantaste em mim, novamente, o desejo de viver.
Mas não porque és simplesmente bela na sua forma exterior; és bela também em teu interior, e não acabaria de escrever se tivesse de dar notícias de tua grandeza, de tua moral, de tua força.
Me dissestes, ontem, que se tiver sorte, há de ficar bem velhinha e que já sabes, de antemão, que não serás uma bela velhinha.
Nada sei de futuros, e nada posso dizer sobre isso; ainda assim posso dizer que serás uma velhinha amada.
Mas quero que saibas que este que te ama, que é dado como doente terminal, teve em si reaceso o desejo de viver e envelhecer, acompanhando-te, como possível, amando-te como um louco, até o remate de nossos dias…
Este que te ama teve reacendida por ti a chama do desejo pela vida. E, se até há algum tempo vivia por viver, vive agora por amor à vida, que te trouxe até a mim, com tuas histórias, tuas dores, teus medos, anseios, desejos, pequenas manias (o encanto de uma mulher são suas pequenas manias), teu charme (Senhor! Por que a fizestes assim?!), teus encantos.
Se me fosse dado escolher, escolheria atravessar o tempo que nos resta perto de ti.
Envelheceríamos juntos, olhando o Sol se pôr sobre o mar, naquele lugar só nosso, que ninguém suspeita, sabe ou pressente; compartilharíamos a vida e o que ela nos oferece até que nada mais restasse.
Certamente encontraríamos pessoas cruéis que diriam:
“Quem vos viu e quem vos vê”; numa alusão cruel ao que o tempo nos toma a cada dia. Mas estes são tolos, que nada aprenderam e que estão, como nós, em peregrinação ou romaria sobre a Terra, e o tempo também lhes cobrará seus tributos.
Quando eles surgirem, deveremos sorrir, pois só nós sabemos o que a vida nos deu, e quão poucos recebem esta alegria de amar e ser amado através do tempo e do espaço, na presença distante e na ausência dorida de saudades…
São tolos estes que debocham de ti. Não te sabem, não te conhecem como eu. Não merecem teu crédito.
E passaríamos o tempo, viveríamos a vida, amaríamos um ao outro, da nossa maneira peculiar e, se Deus me amasse muito, mas muito mesmo, me levaria antes de ti, para que eu não tivesse de suportar a dor da saudade…
Se Ele te levasse antes de mim, haveria um velho triste, cabelos encanecidos, que depositaria uma rosa branca na orla de uma praia todos os dias e ficaria esperando o mar buscá-la e levá-la para ti.
Todos os dias este velho olharia o céu, o mar, a lua e o infinito, buscando a luz de teus olhos em Canopus, Sirius, Capela (a saudosa Capela) ou Aldebarã…
Sei que uma delas haveria de brilhar mais intensamente por alguns segundos, todas as noites, o que daria muita dor de cabeça aos astrônomos do mundo, que pretendem saber tudo de estrelas sem saber nada de amor, eu veria este brilho e voltaria para casa feliz, sabendo que o Olimpo recebeu de volta uma de suas ninfas e poderia até mesmo sorrir de alegria, sonhando com a concessão piedosa de Zeus, que me permitiria visitá-la vez por outra, neste meu amor humilde, que se contenta em sabê-la existente.
E este velho triste chamaria a atenção de um menino que perguntaria a seu avô sobre tal homem e o avô diria:
“Ali está um homem que amou e foi amado, cujo amor transcendeu o tempo, o espaço e venceu até mesmo os limiares da morte, um amor que, enfim, venceu tudo…”
E o menino não entenderia nada; talvez viesse até a mim, me olhasse, mas não diria uma palavra, diante da saudade em meus olhos.
Meu amor por ti é eterno; e será como o do poeta, que amou “muito e amiúde e que morreu de amar mais do que pôde”…
Mas, talvez, eu parta mesmo antes de ti. E no último momento você terá de meus olhos as mesmas notícias que tem hoje. A jura de um amor eterno, que irá além da última estrela deste Universo conhecido, alcançando a primeira do outro, ainda em construção, que explica a incomensurável noção de infinito…
E você verá que as minhas forças se esvaem, que minha respiração se faz débil e que, finalmente, repouso, pacificado, em teus braços…
Talvez você pense:
“Repousa o meu guerreiro”. E certamente acrescentará:
“É um repouso merecido”.
Bem sabes de minha batalhas; tens participado de cada uma delas como uma leal amiga, uma fiel companheira, uma amante ardente; tens me oferecido a melhor palavra, o melhor gesto, o mais importante vaticínio; só tu tens o dom de me frear os impulsos de fúria e minha gana de destruição…
Tens sido minha luz, minha força, minha coragem, minha vida, meu tudo…
Nada sei do que vai além da morte, mas quero acreditar que poderei sentar em uma rocha bem alta e ficar te olhado, caminhando, o passo lento, a visão embargada pelas saudades; até que um dia, finalmente, me digam:
“Volta, e busca tua amada”.
E eu te buscarei, devagar, com a calma daquele primeiro beijo, quando te puxei pela mão, lenta, timidamente, assustado como um adolescente; sentirás minha presença e, aos poucos, poderá me ver; saberás então que é tempo de retornar e eu te tomarei pelo braço e nos descobriremos ainda e novamente jovens, pois nossas almas serão para sempre jovens, renovadas na força de um amor que não tem fim…
Claudius é ex-DJ na noite paulista (“naquela” noite),
webmaster da soropositivo homepage e leva a vida a trancos e barrancos.


